Copa de Elite

Parodiando filmes brasileiros como Se Eu Fosse Você e Nosso Lar mas, principalmente, o do qual tira seu nome, Copa de Elite insiste em uma piada por minuto e usa cada uma ao ponto de exaustão, temendo que o espectador pare de rir e perceba a copa-de-elite-posterfragilidade do longa sequer por um instante – o problema, porém, é que a maioria esmagadora das piadas não funciona e, assim, esta “comédia”falha espetacularmente.

O roteiro, assinado pelo diretor Vitor Brandt e por Pedro Aguilera, segue o capitão do BOP (o Batalhão de Operações, que perdeu o E de “Especiais”) Jorge Capitão (Marcos Veras). Adorado pelos civis e respeitado pelos colegas de trabalho, ele torna-se inimigo da nação ao salvar o craque da seleção argentina de futebol de um sequestro. Assim, ao descobrir um plano para matar o papa durante a partida entre Brasil e Argentina que encerrará a Copa do Mundo, Capitão vê na missão a chance de recuperar seu antigo prestígio. No caminho, ele recebe a ajuda de Bia (Júlia Rabello), dona de uma sex shop conhecida como Bruna Alpinistinha durante a época em que trabalhou como prostituta.

Repleto de expressões com duplo sentido e insistindo em mostrar cada um deles graficamente na tela – quando alguém fala de um galo na cabeça ou chama alguém de burro, os animais fazem uma aparição -, Brandt e Aguilera não sabem quando encerrar uma piada, perdendo a chance de fazer funcionar as poucas tiradas eficientes, como o fuzil que posta fotos automaticamente no Facebook. Isso atinge o ápice na penosamente extensa sequência inspirada em Se Eu Fosse Você, que exemplifica outro problema do humor do longa: as referências são gratuitas e baseiam-se principalmente no reconhecimento delas pelo público, já que pouco (ou nada) acrescentam à narrativa. A participação de Anitta, por exemplo, é tão descartável que os realizadores sequer tentam utilizar a cantora em alguma piada.

Além disso, os cineastas aparentemente não confiam no público – ou são tão pouco inspirados que acham que utilizar a mesma fonte do título dos longas estrelados por Glória Pires e Tony Ramos e trazer o médium interpretado por Bento Ribeiro explicando a um espírito que só ele consegue vê-lo são tiradas divertidas. O maior elogio que se pode fazer ao humor de Copa de Elite é que, com exceção da utilização de anões para fazer rir e de se referir a um homem asiático como “Gangnam Style” (além, claro, da escalação de Alexandre Frota como a mãe do Capitão, seguindo a mais do que ultrapassada prática de rir da feminilidade de um homem), o filme é, de certa forma, pouco discriminatório – sim, há inúmeras referências a “tendências homossexuais” dos personagens masculinos, o que é uma forma clichê e pouco inspirada de piada, mas pelo menos elas são recebidas com naturalidade. E Bia, até mesmo pela natureza erótica de sua profissão, é surpreendentemente bem tratada pela narrativa, dando à humorista Júlia Rabello a mínima oportunidade de fazer algo interessante com sua personagem.

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Mais inesperado, porém, é o fato de que o péssimo humorista Rafinha Bastos está realmente muito divertido e eficiente como René Rodrigues, um ator brasileiro de fama internacional que já ganhou inclusive um Oscar (e leva a estatueta com ele para todo lugar), um personagem divertido em sua megalomania e ego gigantesco. Já Marcos Vera interpreta um protagonista que os realizadores ou não conhecem muito bem ou não aproveitam seu potencial, já que o misto de supercompetência do “melhor capitão que o BOP já teve” com o despreparo com que ele encara um ataque de “ácido”, por exemplo, é um contraste divertido – mas não fica claro se os surtos de pânico e estupidez são realmente características do personagem ou apenas mais tentativas baratas de (falhar em) arrancar risadas do público.

A forma como Capitão declara que “prometo que vou trabalhar nisso nos próximos dias” e a total falta de sutileza com que o vilão declara que “o papa vai morrer… de emoção”, unidos a momentos como um status do Facebook que revela os planos de um personagem sobre o líder religioso e ao olhar distante e sonhador de Bia quando a história de sua vida está prestes a nos ser revelada através de um flashback, mostram que Copa de Elite poderia funcionar se, como nas ótimas sátiras dos anos 80 como Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu!, abraçasse a absurda dramaticidade de situações como o acidente de carro que moldou o protagonista e o fato de que, no final, Capitão termina praticamente concretizando os planos do vilão que, ao serem negados, deram início a seu plano de assassinato.

Os elementos eficientes, porém, estão tão espalhados por um oceano de mediocridade e piadas que simplesmente falham em arrancar o mínimo sorriso e, portanto, pensar que este longa poderia funcionar em mãos mais competentes é um sonho impossível. O resultado final é um trabalho preguiçoso, que não reconhece seus raros acertos e insiste em repetir exaustivamente o que faz mal.


“Copa de Elite” (Bra, 2014), escrito por Victor Brandt e Pedro Aguilera, dirigido por Victor Brandt, com Marcos Veras, Júlia Rabello, Rafinha Bastos, Annita e Alexandre Frota


Crítica do filme Copa de Elite

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