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Construindo Pontes | O “não dito”

Construindo Pontes Filme

O ditado popular reza que futebol, religião e política não se discute. Discordo. Porém, ainda que seja necessário discutir todo e qualquer tema, acho difícil alguém discordar, incluindo os participantes de Construindo Pontes, que discutir política é de longe a atividade mais extenuante de todas.

Porém, uma atividade necessária. E o que a fotógrafa Heloísa Passos faz aqui como documentarista é abrir feridas em sua própria família, uma ação que ela também julga necessária. E por família leia-se pai.

Ela e seu pai parecem nunca ter sido muito próximos desde a época que ele mal tirava férias, mas com o passar do tempo a distância entre eles piorou quando cada um se moveu para um extremo diferente de opiniões. Quando a filha vira diretora e começa a construir uma narrativa em torno da usina de Itaipu e do afogamento de Sete Quedas, em plena ditadura militar, ela resolve consultar o pai, engenheiro dessa mesma época, e responsável por importantes obras no Paraná, principalmente pontes e ferrovias.

Conforme Heloísa faz com que seu pai comente os vídeos das obras faraônicas daquela época surge a questão política entre eles. Para o engenheiro, o único momento que houve na história do Brasil um “projeto de país” foi em seu início (que ele chama de revolução). E essa opinião é o estopim para ouvirmos Heloísa retrucar. Dinâmica que vai se tornando comum durante o longa, a narrativa de Heloísa parece que vai mudando aos poucos, e a história de Sete Quedas, assim como ocorreu na construção da usina, fica soterrada de lama.

Independente de quem está com a razão nas crescentes discussões dos dois (geralmente ninguém), elas chegam até o momento atual do país, com a Operação Lava Jato e a caça aos corruptos empregada pelo magistrado Sérgio Moro. E como você deve conseguir prever, caro leitor, é esse o momento de maior cisão entre os dois. E, indiretamente, de quem está na sala de cinema, se debatendo pelo menos contra um dos lados da discussão. Esse efeito irracional que bate em todos nós é fruto da necessidade instintiva de protegermos os nossos valores mais arraigados. E é essa a razão do ditado popular. É como se estivéssemos a todo o tempo sendo atacados, e o organismo responde com picos de adrenalina.

Construindo Pontes Crítica

Por isso mesmo, discutir política é uma atividade desgastante. E no caso do filme, aparentemente inútil. Pelo menos no que diz respeito ao objetivo inicial da diretora. Porém, ainda assim, dotado de mãos habilidosas em costurar uma narrativa conforme ela vai se formando, Heloísa sintetiza de maneira brilhante o atual momento de cisão do próprio país, que se divide binariamente em coxinhas e petralhas, criando assim um novo sentido para seu projeto. E essa cisão, é importante lembrar, existe inclusive (e talvez principalmente) entre as famílias, que ela resume como “o não-dito”.

A forma de Heloísa fotografar todas essas cenas não poderia ser melhor. Dotada de mecanismos praticamente caseiros para realizar este trabalho, em nenhum momento temos a sensação de amadorismo. Isso também graças à edição dinâmica, que vai se movendo de um ponto a outro da história rapidamente, sem nos dar sequer tempo de raciocinar sobre qual é o tema. Dentro desse aspecto, se torna genial, pois emula praticamente o próprio trabalho da diretora, que vai de edição para filmagem e de filmagem para edição, sem saber onde tudo isso vai parar. Um processo que, diga-se de passagem, é ignorado pelo seu pai. E ele, por outro lado, com um discurso mais vivido, parece esconder uma certa sabedoria em suas palavras ditas com cuidado para sua filha, que por sua vez, sempre mais emocional, desconhece.

Dessa forma, parece que qualquer projeto desses hoje em dia, que tente abrir feridas de discussões das mais arraigadas entre nós, tem certa chance de sucesso. Como foi em Construindo Pontes. O mérito fica todo por conta da realizadora, que colocou sua cara a tapa e revelou no processo uma realidade interessantíssima do atual momento da sociedade, que briga constantemente nas redes sociais. Trazer isso para a vida real, no seio de uma família, foi uma tarefa metalinguística no mínimo interessante.


“Construindo Pontes” (Brasil, 2017), escrito por Stefanie Kremser, Heloísa Passos, Letícia Simões, dirigido por Heloísa Passos.


Trailer – Construindo Pontes

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