Conan, O Bárbaro | Não serve nem como divertimento vazio


Entre refilmagens e adaptações de quadrinhos, talvez Conan, personagem criado por Robert E. Howard em 1932 (inicialmente para uma série de livros, mas que ficou conhecido pelas histórias em quadrinhos), fosse um dos que mais merecesse uma chance cinematográfica, já que sempre contou com muitos fãs e uma enorme mítica a ser explorada (além de dois filmes que não são lá um acerto). O grande problema é que nas mãos do (sempre) pouco inspirado Marcus Nispel Conan, O Bárbaro se tornou apenas uma aventura boba e sem graça.

Mas talvez o diretor alemão (Nispel) não seja o culpado, mas sim quem o contratou, já que o mesmo já tinha tido sua oportunidade de brincar com espadas e bárbaros em “Desbravadores” e o resultado tinha sido pífio, ainda que, visualmente muito mais interessante que esse novo Conan, perdido em uma falta de personalidade estética e empurrado por um roteiro completamente descontrolado.

Visualmente, Conan, O Bárbaro escolhe ser essa aventura bárbara “limpinha”, com uma direção de arte que funciona na criação concisa desse mundo, mas é tremendamente prejudicada pela direção de fotografia “clarinha e bonitinha” de Thomas Klow. Talvez um defeito técnico que pudesse passar despercebido em muitas produções, mas que aqui acaba formando essa barreira intransponível que não deixa o espectador “acreditar” no que está vendo. E em uma história desse tipo, isso é um erro fatal.

Nispel se esforça em tentar ser violento e selvagem, com muito sangue, decapitações e mais alguns tipos de ferimentos expostos, mas essa “limpeza estética” não deixa nada disso funcionar. A situação fica pior quando o diretor não percebe tudo isso e opta por se aproximar demais de toda ação o que deixa tudo mais artificial ainda.

Isso acaba sendo uma pena, já que Conan, O Bárbaro se mostra cheio de boas intenções. Suas sequências de ação funcionam, sua história engana (mesmo preguiçosa e perdida em motivações rasteiras) e o inexpressivo Jason Mamoa acaba segurando bem o papel título, já que pouco tem a fazer a não ser “cara de mal” e empunhar uma espada com propriedade. Melhor, sem em nenhum momento se mostrar imbuído a repetir a inexpressividade (um pouco mais simpática) que Schwarzenegger exalou nos outros filmes. Resumindo: Mamoa é tão ruim que acaba funcionando perfeitamente para o papel.

Por outro lado, nem algum gênio da interpretação conseguiria segurar esse personagem criado pelo roteiro de Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer e Sean Hood (três nomes que também não dariam muita esperanças, responsáveis por coisas com Halloween Ressurection e Cubo 3: Hipercubo) que, simplesmente, não tem a mínima ideia do que querem com o anti-heróis cimério. Em um esforço hercúleo criam esse jovem nascido em um campo de batalha, selvagem e traumatizado pela morte do pai, porém, todo esse esforço termina em vão, já que pouco desse garoto acaba aparecendo em sua versão adulta, o que, praticamente, joga no lixo toda motivação e  tempo perdido que o grupo de roteiristas inventa em torno de três prólogos.

Quando o verdadeiro Conan é apresentado, “depois de várias aventuras por reinos desconhecidos” (como um narrador faz questão de indicar), sobra nele uma simpatia e um charme selvagem ao libertar escravos por puro altruísmo, conquistar algumas garotas e se divertir enquanto enche a cara de hidromel. É fácil sentir falta dessas “várias aventuras” que fizeram aquela criança se tornar esse anti-herói, mas não se preocupem, assim que você estiver se acostumando com esse novo Conan, Mamoa cerra os olhos (e olha de baixo para cima), pega sua espada e parte em busca da vingança ao encontrar um daqueles que acabou com sua tribo. Durante esse caminho, ainda dá de cara com uma monge perseguida (Rachel Nichols, que faz questão de gritar o nome do personagem um número infindável de vezes), coincidentemente, pelo mesmo Khalar Zym (Stephen Lang, que não se cansa de ser mal depois de Avatar) que Conan jurou vingança.

Perdido no meio de motivações, Conan não sabe se salva o mundo desse vilão que quer dominar tudo à sua volta, resgata a mocinha ou vinga o pai. Por sorte do roteiro, ele até consegue matar todos esses coelhos com uma “espadada” só,Conan, O Bárbaro Filme mas até lá o espectador é obrigado a conhecer (ainda) um terceiro Conan, quase tomado pela paixão (quase, por que ele é bárbaro demais para demonstrar tais sentimentos, e talvez ainda fosse um problema enorme para Mamoa) correndo atrás da mocinha gritando seu nome.

E se em filmes desse tipo, onde um herói tem que, por definição, acabar, e pronto, com o vilão, todos sabem a importância de um arqui-inimigo que funcione e Lang como Khalar Zyn acaba totalmente descompensado e perdido. Ainda mais quando o roteiro só resolve lhe dar o motivo de toda ira depois do meio do filme (e com um flashback totalmente fora de contexto). Pior ainda, quanto mais perto chega desse confronto com o protagonista, mais parece emburrecer e tomar as atitudes óbvias e sem sentido, ou ninguém percebe que, mesmo depois dele conseguir usar a tal “máscara” (que vira uma espécie de chapéu) ele acaba não fazendo nada com ela que dê razão a toda procura que se estendeu por todo filme.

O mais engraçado de tudo é que Conan, O Bárbaro tinha todos predicados para se tornar uma daquelas porcarias caprichadas e divertidas (como John Millius fez em 1982), fácil de engolir como um épico bárbaro com pouco sentido, o que não acontece aqui, pois, nas mãos de Marcus Nispel, não consegue nem achar uma função prática para o protagonista andar sem camisa enquanto todos se cobrem dos pés à cabeça (muito mais funcional em se tratando de uma batalha).


Conan the Barbarian (EUA, 2011), escrito por Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer e Sean Hood dirigido por Marcus Nispel, com Jason Mamoa, Stephen Lang, Rachel Nichols, Ron Pearlman e Rose McGowan


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