Como Ser Solteiro Filme

Como Ser Solteira

Como Ser Solteira se propõem a acompanhar os desenrolares da vida amorosa e as buscas por propósitos e aspirações de um grupo de pessoas em Nova York. Através de alguns momentos e diálogos inspirados, porém, o roteiro parece não saber muito bem como chegar aonde quer e, assim, acaba se entregando às mesmas convenções da comédia romântica que quer reconstruir.

Na faculdade, Alice (Dakota Johnson) conhece o simpático Josh (Nicholas Braun), e os dois instantaneamente se encantam um pelo outro. Quatro anos depois, porém, ela percebe que nunca ficou sozinha na vida — saiu da casa dos pais para o dormitório da faculdade para o apartamento que divide com o namorado — e, portanto, decide “dar um tempo” no relacionamento para “se descobrir” em Nova York, onde conseguiu um emprego de assistente em uma firma de advocacia. Sem saber como agir sem alguém ao seu lado, porém, Alice contará com a ajuda de sua colega de trabalho Robin (Rebel Wilson) para lhe guiar rumo à independência e à curtição.

É assim que ela conhece Tom (Anders Holm), solteirão convicto que começa a se aproximar de Lucy (Alison Brie), uma mulher tão desesperada em encontrar seu “par perfeito” que criou um algoritmo para encontrar as combinações mais promissoras em uma dezena de sites de relacionamento. Enquanto isso, a irmã mais velha de Alice, Meg (Leslie Mann), uma médica dedicada, decide ter um bebê por inseminação artificial.

“Por que sempre contamos nossas histórias através de relacionamentos?”, pergunta Alice na narração que abre o filme (e que — surpresa! — desaparece logo em seguida apenas para retornar para mais “frases inspiracionais” ao final do longa). Como Ser Solteira está perfeitamente ciente da forma como as mulheres solteiras são retratadas na ficção, sempre procurando namorados por mais que declarem aos quatro cantos as alegrias da solteirice. Assim, por mais que procure fazer algo diferente, o diretor Christian Ditter e os roteiristas Abby Kohn, Marc Silverstein e Dana Fox (inspirados no livro de Liz Tuccillo), o filme não alcança os objetivos a que se propõem ao ceder aos mesmos clichês que condena: mulheres solteiras passam praticamente o tempo todo preocupadas com homens, desesperadas para encontrar o cara certo, e sentem que precisam justificar sua solteirice a estranhos; homens solteiros cultivam um harém e se recusam a se prender a alguém.

E quem não for heterossexual, cisgênero e relativamente bem de vida não precisa se preocupar: aparentemente, todos eles já sabem como ser solteiros, pois encontram-se completamente ausentes da Nova York vista aqui (onde, aliás, uma assistente legal recém-contratada parece nunca estar no escritório e, além disso, tem dinheiro para morar sozinha em um apartamento bacana). Alice não sabe como reiniciar seu roteador, ajustar sua televisão ou abrir o zíper de seu vestido sem um homem ao seu lado! Meg é uma médica workaholic perfeitamente satisfeita sem um marido ou filhos — até que, depois de anos como médica e de ter ajudado milhares de bebês a nascer, ela percebe que eles são adoráveis e que, na verdade, ela quer muito ser mãe. Desconectada da trama central, Lucy é interpretada pela completamente dentro dos padrões de beleza Alison Brie, mas veste Spanx para ler livros para crianças, para que nenhum homem jamais se arrisque a ver “toda as gorduras” (ahn?) de seu corpo, e é ali mesmo na livraria que ela tem um chilique. Hahaha, mulheres são doidas!

Como Ser Solteira Crítica

Entretanto, Como Ser Solteira tem seus momentos inspirados — mesmo que estes sejam baseados em conceitos que não permeiam a narrativa. A sequência em que Alice e Robin tem meia hora para chegar ao trabalho depois de uma noitada merece destaque e, aliás, Robin fica com os melhores diálogos, mérito também do timing cômico de Rebel Wilson. A atriz também consegue imprimir alguma profundidade a sua personagem, que representa uma ideia totalmente descabida de liberdade e independência — para o filme, uma mulher segura de si é aquela que mal se lembra dos homens com quem transou na noite anterior, de tão bêbada que estava. Leslie Mann, por sua vez, ao menos forma uma química interessante com Jake Lacy, e é agradável ver um romance entre um homem jovem e uma mulher mais velha tratado com naturalidade, ainda que ele seja excessivamente imaturo apenas para realçar a diferença de idade entre os dois.

Dakota Johnson é simpática, mas presa a uma personagem desinteressante que apenas ocasionalmente faz rir. O arco dramático de Alice leva a protagonista basicamente à mesma realização que ela teve no começo: ela precisa de tempo consigo mesma para descobrir o que quer e quem é. Enquanto isso, Damon Wayans Jr. protagoniza uma subtrama moderadamente interessante, mas que parece estar ali apenas para que o filme possa dizer “viu? Nós sabemos que existem outros tipos importantes de amor além do romântico!”.

Ultimamente, esta é uma comédia que trata ser solteira(o) como uma fase que necessariamente, mais cedo ou mais tarde, irá chegar ao fim. Assim, Como Ser Solteira é prejudicado por suas ambições inalcançadas de ser uma comédia moderna sobre mulheres independentes que, mesmo assim, consegue fazer rir através de alguns momentos inspirados e de seu elenco carismático.


“How to be Single” (EUA), escrito por Abby Kohn, Marc Silverstein e Dana Fox a partir do livro de Liz Tuccillo, dirigido por Christian Ditter, com Dakota Johnson, Rebel Wilson, Leslie Mann, Anders Holm, Damon Wayans Jr., Alison Brie, Nicholas Braun e Jason Mantzoukas.


Trailer – Como Ser Solteira