Comer, Rezar, Amar | Julia Roberts estreia adaptação de Best Seller que olha para dentro de si


É impossível uma história sobre uma mulher que vive um vazio em sua vida de casada e resolve fazer uma viagem de um ano atrás do amor por si própria, onde desembarca primeiro na Itália, depois Índia e por fim Bali, não ser taxado de filme de mulherzinha. O que, nem de longe pode ser considerado pejorativo, já que, do mesmo jeito que o Michael Bay está pouco se lixado para elas, Comer, Rezar, Amar pouco se importa com eles.

Portanto, acusar o novo filme de Ryan Murphy, tirado do Best Seller homônimo de Elizabeth Gilbert, de pouco preocupado com nada a não ser seu público alvo é no mínimo equivocado. O que se precisa levar em conta sim é como tudo isso se porta como filme, que é onde escorrega um pouco e, se não fosse uma mensagem interessante a ser passada, se tornaria um filme longo e chato.

Não que tenha muito tempo sobrando, na verdade o roteiro escrito pelo próprio Murphy em parceria com Jennifer Salt (dupla que também trabalhou junta na série ¿Nip/Tuck¿), até parece preocupada em ser conciso, principalmente a partir do momento que começa a viagem da personagem, fazendo com que, a partir daquele momento, tudo realmente pareça ter sua função narrativa. Tanto para desenvolver a idéia central quanto para fazer com que você veja a protagonista dando seus passos na direção de suas transformações.

Grande parte desse problema acaba acontecendo, justamente, por uma necessidade de mostrar como tudo aquilo era, fazendo com que o espectador fique um bom tempo vendo-a se preparar para tomar as decisões. Talvez até chafurdando demais em seu vazio, coisa que, provavelmente nem seria tão necessário, já que desde a primeira cena (não em Bali, mas na festa), já ficaria fácil encontrar razões para a futura separação. Do mesmo jeito que o relacionamento subseqüente também poderia ganhar muito menos tempo, até por que o roteiro ainda volta neles por meio de flashbacks, o que, se talvez usado mais vezes, muito provavelmente desse mais ritmo ao filme.

A perda de ritmo ocorre muito graças a um esquema quadrado demais com que o filme é pensado. Do mesmo jeito que o título é separado em três verbos, Murphy divide seu filme em três momentos distintos: um na Itália, um segundo na Índia e um terceiro em Bali, porém o faz sem se preocupar em distinguir muito isso dentro do produto geral. Mesmo que, em muitos momentos apareça bem com uma câmera que plana pelo cenário e sabe bem que não pode esquecer-se do quão belo são os três lugares onde ela visita, acaba fazendo isso apenas por fazer, saindo de um lugar e chegando a outro sem construir nada para a trama. Como se tivesse muito para mostrar, mas nem tanta coisa assim para contar, quando na verdade, tem em mãos um rico material, ao ser usado funciona perfeitamente.

Grandes planos abertos das belezas naturais são jogados fora apenas para mostrar o quanto aquilo é bonito, quando, por muitas vezes poderia ser o background perfeito para a própria ação. Talvez, seja possível ir até mais longe, já que de pouco adianta todo esse visual quando o próprio filme só se importa com a história autobiográfica da própria escritora nesse ano de viagem. É lógico que esse apreço com a imagem não deixa o filme feio, mas sim o torna picotado demais entre o que interessa e o que está ali só por ser bonito.

Perde ainda mais o ritmo de tudo ao não conseguir formar uma unidade entre os três momentos, ou melhor, se esquecer de impor o lugar à situação. Se logo de cara, em Roma, cria um clima bem diferente daquele de um primeiro momento em Nova York, com a música, as piazas, a comida, a calmaria e o desapegado de preocupação que eles têm orgulho de viver, por um segundo, quando o filme corta para um taxi ensandecido correndo pela índia colorida e barulhenta, faz o espectador se sentir o baque de uma mudança abrupta de mundo. O problema é que, logo depois, tudo isso é esquecido, e o espectador é obrigado a voltar para a Roma, com todo bônus dos sentidos sendo substituído por uma busca existencial.

Essas escolhas ainda deixam o filme perder uma ironia que acaba passando quase despercebida, já que das ruínas de Roma, a cidade definida pelos próprios romanos, no filme, como ¿sexo¿, ela encontra as amizades e uma adrenalina de viver a vida a cada momento. Bem diferente da Índia, com todo seu ritmo frenético, onde ela tem que conseguir esvaziar sua mente a procura de um guru (que, mais ironicamente ainda, não está lá), mas acaba tendo, diante da amizade de um americano, as ferramentas para descobrir seu caminho. Tudo isso para, por fim, encontrar seu verdadeiro amor em Bali (um brasileiro, vivido por Javier Barden e um sotaque vergonhoso), justamente no lugar aonde vai para encontrar o xamã que prometeu ensiná-la tudo que sabe, mas que acaba achando dentro dela mesma, o que precisa para finalizar essa viagem.

No centro de tudo, Julia Roberts, faz um trabalho que acaba sendo bem pouco, perto do que pode fazer, repetindo gestos e posturas de muitos de seus personagens que, por um período, figuraram algumas comédias românticas (não que esse gênero desponte aqui), onde se esforça ao máximo para viver aquela heroína normal, porém verdadeira e sem glamour, o que a aproxima demais do espectador, mas que, talvez por uma falta de onde achar mais profundidade, acaba não funcionando muito bem quando o diretor se perder em horrorosos closes em alguns de seus diálogos (já que, sem muitos rodeios) Roberts não é nenhum exemplo exuberante de beleza, e seu sex appeal aparece muito mais diante de seus personagens do que de sua pessoal.

Mas, de qualquer jeito, no fim das contas, é essa vontade de fazer seu espectador olhar para dentro de si e pensar um pouco sobre tudo que está fazendo (assim como um bom humor que pontua toda trama e descarrega um pouco qualquer peso dramático excessivo), que faz com que ¿Comer, Rezar, Amar¿ não perca o interesse durante toda essa trajetória. Um melodrama e uma esquematização quadrada que não dão ritmo ao filme, mas o deixam sobreviver como lição de vida, coisa que é, muito provavelmente, o que a maioria do público do filme vai à procura.


Eat Pray Love (EUA, 2010) escrito por Ryan Murphy e Jennifer Salt, a partir do livro homônimo de Elizabeth Salt, dirigido por Ryan Murphy, com Julia Roberts, Hadi Subiyanto, Billy Crudup, Viola Davis, James Franco e javier Bardem.


3 Comments

  1. Concordo apenas com o “…filme longo e chato.”, fora do seu contexto, rs…
    Fui assistir o filme antes de ler o livro, pois já tinha ouvido falarem mto bem do livro. E adoro ler e ver filmes, qdo junta as 2 coisas, amo!
    Assisti, confesso, com expectativas um pouco altas por conta do livro famoso e do elenco do filme. Tão grande qto estavam minhas expectativas, foi a minha decepção com o filme. Meu marido simplesmente dormiu no meio dele e eu tive q me esforçar pra manter os olhos abertos até o fim. Mas assisti inteiro sim. E não gostei. Foi frustrante, então resolvi ler o livro, acreditando q fizeram uma pobre adaptação pra telona… Igualmente frustrante, parei no começo da 2ª parte do livro…

  2. Hoje domingo, vi o DVD “Comer, rezar e amar”, confesso q só vi este filme devido a estrela Júlia Roberts. Gostei muito, e me interessei pelo livro…talvez eu compre, mas não agora…Quanto ao filme vou revê-lo…Júlia Roberts como sempre linda e talentosa, Quanto a parte que cabe ao país tupiniquim, (bRASIL), BEM QUE PODIAM TER ESCALADO RODRIGO SANTORO!!! As musicas brasileiras de qualidade escolhidas p/ o filme são de uma qualidade INQUESTIONÁVEL.

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