Code 8: Renegados | Sem uniformes, mas com o mesmo fator “X”


Code 8: Renegados nos apresenta a um mundo onde os mutantes/pessoas com poderes (PCP, ou PWP – “Powered People” no original em inglês) são os novos imigrantes ilegais. Conhecidos pelo mundo desde a Segunda Guerra, foram essenciais para a industrialização dos EUA. Gradativamente substituídos nas fábricas por máquinas e responsabilizados por várias mazelas sociais (uma droga sintética super viciante chamada Psyke é feita com fluido espinhal de PCP), acabam obrigados a se registrar e relegados aos subempregos e empregos manuais.

Nesse cenário, somos apresentados a Conner Reed (Robbie Amell), um PCP, lutando para sustentar a si e sua mãe, Mary (Kari Matchett), está muito doente e com as contas hospitalares se acumulando. Tudo muda quando Conner é abordado por uma equipe chefiada por Garret (Stephen Amell, da série Arrow), conhecida por serem traficantes de Psyke. Mesmo desconfiado, Conner se junta ao time para praticar alguns golpes, sempre perseguidos pela polícia chefiada pelo tenente Park (Sung Kang), que está atrás do chefe de Garret, Marcus Sutcliffe (Greg Byrk).

Os eventos vão se acumulando e Conner tem que tomar decisões difíceis para se manter vivo e salvar sua mãe, em meio à guerra urbana entre os humanos e os PCP.

Mesmo convencional, se destaca por usar, de forma realista e com bons efeitos especiais, um pano de fundo de criminosos com poderes especiais, e nisso sendo bastante competente, resultando em uma boa mitologia para que os espectadores embarquem na trama. Muito embora mantendo as ideias apresentadas em um super resumo inicial de três minutos bem superficial.

Um exemplo claro é a apresentação de que existem poderes mais disseminados do que outros: pirotécnicos, elétricos e superforça parecem mais comuns, enquanto poderes mentais, magnéticos e outros não. A característica mais pronunciada e que parece estar em todas as habilidades especiais são os níveis de poder, em uma escala de um a cinco, sendo um o mais fraco e o cinco mais forte.

A óbvia inspiração do filme é o universo dos X-Men, com seus temas de preconceito e discriminação, a utilização de robôs implacáveis para a repressão dos PCP (Sentinelas, alguém?), e os poderes dos PCP sendo usados para os próprios fins dos seus portadores, mas, feliz ou infelizmente, não se vê um único uniformizado em cena e nenhuma intenção de “proteger a humanidade”. O foco do filme é pé-no-chão e com pouco espaço para valores edificantes ou fantasia.

O uso dos poderes também busca se aproximar o máximo possível da realidade, nada de excessos de pirotecnia, tudo bem concreto. Os poderes menos físicos, como mentais e magnéticos – o do chefão do tráfico, ou do seu tenente, Garret, por exemplo – são mostrados com discrição, e essa opção se estende às demais habilidades, incluindo as do protagonista.

Na realidade, Code 8 usa esse pano de fundo para desviar a atenção de que é bem mediano em seu núcleo narrativo central. Já vimos essa história centenas de vezes antes, o protagonista essencialmente honesto que se vê “obrigado” a entrar no mundo do crime para “salvar” a família ou algo parecido. Os personagens não fogem dos estereótipos, todos esses aparecem em algum momento: o tenente que quer derrubar o capitão, a mãe abnegada, a garota presa em uma vida que não deseja, a injustiça do mundo, o membro do sistema que vê a humanidade do diferente etc.

Se não fosse o inusitado pano de fundo, cairia na vala (bem) comum.

Em suma, é um projeto de amor dos realizadores, com a participação decisiva do ator Stephen Amell, que foi catapultado à fama mundial graças a um personagem de quadrinhos – o Arqueiro Verde da série Arrow – e que conquistou a simpatia do ator Sung Kang, da franquia Velozes e Furiosos, indiscutivelmente o mais famoso de todo o elenco.

Mas talvez o destaque mais interessante é que o filme foi realizado através de uma campanha de financiamento coletivo de dois anos de duração, onde os apoiadores podiam ganhar todo tipo de traquitana como produtos de casa, marketing e até participar como extra das filmagens. A camapnha já rendeu outros frutos, já que o conceito vai virar uma série de um serviço de streaming para celulares. Isso talvez explica também a curta duração do longa, deixando a impressão de uma grande propaganda/piloto para emplacar uma série com muitas e muitas temporadas. Material e tramas para isso não parecem faltar.

Como leitor e antigo fã de quadrinhos, o filme me agradou bastante e deve servir até um pouquinho também como alternativa àqueles que estão cansados da grandiloquência dos “MCU e DCU da vida”, irão preferir seus poderosos mais firmados na realidade, como nas séries da Netflix e outros.

Entretanto, não consigo vislumbrar como o espectador fora do nicho vai reagir. O mais provável é que não fixe muito na cabeça e siga para o próximo hype do algoritmo, esperando algum milagre da cela saindo do poço.


“Code 8” (CAN, 2019), escrito por Jeff Chan e Chris Paré; dirigido por Jeff Chan; com Robbie Amell, Stephen Amell, Greg Bryk, Kyla Kane, Sung Kang e Kari Matchett.


Trailer do Filme – Code 8: Renegados

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