Cleo: Se Eu Pudesse Voltar No Tempo | Fantasia pós queda

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


O vibrante e charmoso Cleo: Se Eu Pudesse Voltar no Tempo nos apresenta a uma peculiar protagonista e a uma Berlim mostrada de forma igualmente peculiar, em que a magia da cidade se mescla aos eventos mais traumáticos e sombrios de seu passado — e que, por sua vez, se mesclam aos eventos mais traumáticos e sombrios do passado da própria Cleo.

Nascida na primeira noite da queda do muro de Berlim, Cleo (Marleen Lohse) perde a mãe antes mesmo de nascer e o pai ainda criança — mas não sem que ele antes transmita seu amor por história, especialmente pela história de Berlim, para a filha. Essa paixão faz com que Cleo escolha seguir a profissão de guia turística, enquanto os traumas de seu passado pintam a natureza espontânea da protagonista de tons sombrios. Até que ela conhece Erich (Max Befort), determinado em encontrar um tesouro que a própria Cleo, um dia, havia sonhado achar: um relógio capaz de voltar no tempo.

Cleo e Erich, então, passam a se aventurar por uma Berlim colorida que parece se abrir para a magia que eles estão tão certos de encontrar; enquanto isso, os traumas da cidade e de Cleo voltam a dar as caras: a última fase da busca pelo relógio, por exemplo, acontece em um prédio construído pelos nazistas. Assim como Berlim, Cleo descobre aos poucos que não pode simplesmente virar as caras para o que gostaria de esquecer, mas que precisa encarar seu passado para seguir em frente.

Embalado pela vibrante e energética direção de fotografia de Johannes Louis, Cleo: Se Eu Pudesse Voltar no Tempo também faz uso da montagem de David J. Rauschning para criar a atmosfera peculiar e mágica do longa — ainda que o número de cortes vez ou outra se mostre exagerado, como quando uma conversa entre Cleo e sua colega de trabalho sofre diversos cortes aparentemente aleatórios em um mesmo plano. Da mesma forma, o primeiro ato é um tanto corrido, impedindo que criemos uma conexão mais forte com os pais de Cleo ou com a infância que ela é forçada tão cedo a abandonar.

Mesmo assim, centrado em uma protagonista envolvente e envolto pelas cores e dinamismo de uma Berlim como poucas vezes vemos nas telonas, Cleo: Se Eu Pudesse Voltar no Tempo é um conto doce e carismático sobre recomeços e a magina do cotidiano.


“Cleo” (Ale, 2019), escrito por Erik Schmitt e Stefanie Ren, dirigido por Erik Schmitt, com Marleen Lohse, Gwendolyn Göbel, Max Befort, Max Mauff, Andrea Sawatzki e Jeremy Mockridge.