Cisne Negro

Não é a toa que muita gente não gosta, ou foge, de Darren Aronofsky e seus filmes, principalmente, por ele próprio não parecer muito preocupado com essas pessoas, já que tem mais com que se preocupar, por exemplo, com seus filmes. Cisne Negro não foge cisne-negro-posterdisso, não tenta ser amigável ou popular, apenas faz de tudo para ser ele mesmo, contar uma história e deixar seu espectador pensando nela por um tempo depois de as luzes se acenderem.

Mas a história sobre essa bailarina (Natalie Portman) que se vê de frente com a oportunidade de interpretar o papel principal no Lago dos Cisnes, escrita por Mark Heyman, Andres Heinz e John J. McLaughlin (único com experiência em roteiros, tendo escrito a comédia O Homem da Casa), não faz Cisne Negro perdurar depois de seu fim por algum tipo de dúvida, mas sim por não permitir que seu público consiga se livrar de seu peso tão facilmente, do mesmo peso que esmaga todos contra suas poltronas durante todo filme.

Esse peso é o mesmo que vem movendo Aronofsky por seus filmes, essa obsessão do diretor em levar seu público para um passeio obcecado pela dor de seus personagens, um caminho que sempre aponta para seus limites, sem precisar olhar para isso como algo necessariamente feliz. Por mais, que sempre faça questão de dar a eles esse momento de êxtase antes do fundo do poço. Não de modo pessimista, mas sim visceral.

É lógico que Cisne Negro não tenta ser cru como seu Réquiem para um Sonho, e é muito menos doloroso que O Lutador, isso por que talvez Aronofsky esteja mais preocupado em casar a veracidade do primeiro, com o estudo cruel do segundo e misturar tudo com o delírio primitivo de seu primeiro filme, Pi (esqueça Fonte da Vida, que talvez seja muito mais uma prova, para bem ou mal, de onde o diretor poderia chegar naquele momento de sua carreira do que, simplesmente, um filme seu).

Aqui, Aronofsky é corajoso, começa seu filme se movimentando em volta da bailarina de Portman, sozinha, sob um foco de luz que parece desesperado para focá-la, mas que não consegue iluminar a angustia de seus olhos e a dor de sua face. Cisne Negro acaba sendo sobre essa dançarina que vê a oportunidade de brilhar em sua companhia de balé, mas para isso, mesmo já garantida no papel, é obrigada a partir nessa viagem angustiante em que tem que deixar um lado seu, que até aquele momento ela própria desconhecia, tomar conta de si: seu reflexo negro (como o cisne que precisa interpretar).

O que o espectador faz é acompanhar a dor das juntas estalando ao acordar, a preparação dolorida da sapatilha, cheia de rasgos e dobras, dos diversos machucados, do suor, da disputa entre as bailarinas, da disciplina e do peso por trás daqueles movimentos que enchem o palco de beleza. Porém, Cisne Negro é muito mais sobre esse impulso violento e destrutivo que carrega a protagonista em direção a essa nova pessoa que ela não desconfiava ser, mesmo que isso lhe custe a sanidade.

Mais maduro e preciso do que nunca, Aronofsky e seu diretor de fotografia (em uma parceria antiga), Michael Libatique, não economizam em uma inquietação das imagens e nas opções visuais que formam esse caminho. Que ilustram essa viagem sem volta. Por vezes, como se estivessem insatisfeitos com suas possibilidades, se perdendo, no bom sentido, em jogos de espelhos que refletem muito mais a verdade que ela própria em alguns momentos. É fácil se ver perdido no que é real e no que é reflexo, assim como é fácil tentar entender de onde vem aquela face perdida em algum espelho afastado no camarim, e essa obsessão por espelhos só mostra o quanto a dupla parece estar no controle daquilo que está fazendo, do quanto tem como objetivo reduzir aquela personagem a se tornar um simples impulso sem controle, que precisa disputar, não só o papel, mas sim sua vida, com ela mesma, com seu reflexo. Seja dentro ou fora daquelas imagens refletidas.

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E a câmera de Aronofsky e Libatique, ao mesmo tempo que coloca em prova essa sanidade, acompanha a protagonista de modo fortíssimo, não simplesmente colando-se nela, mas sim se permitindo se apaixonar, se levar, freneticamente, tanto por seus passos quanto por seus sentimentos à flor da pele. Se em um momento a dupla olha para o bailarino saltando, do mesmo modo que Stanley Kubrick olhou para o machado de seu personagem em O Iluminado, preferindo acompanhar seu movimento ao invés de se manter fixo (além de, aqui, ainda jogar o espectador de cabeça dentro desse palco, girando e se movimentando com eles) por outros, não se incomoda de ser apenas uma testemunha imóvel daquele mundo prestes a sucumbir diante dessa explosão estética, que sempre marca as obras de Aronofsky.

Sob o foco dessa luz, no meio desse palco, quem dá o show é Natalie Portman, muito provavelmente no trabalho mais complexo, e duro, de sua carreira. Precisa, contundente e impecável na procura dolorosa desses pequenos detalhes e nuances que compõe esse personagem, e Aronofsky parece em sintonia perfeita, não deixando nada disso escapar dos olhos de suas lentes. A felicidade do telefonema em lágrimas da escolha para o papel ganha uma profundidade indescritível, que extrapola a obsessão da mãe em ver a filha como a realização do sonho que ela não conseguiu realizar (e da filha em não se tornar um reflexo disso), e pinta um retrato verdadeiro e sensível, da emoção daquele êxtase (já citado) que ele permite seus personagens alcançarem (da descoberta do segredo em Pi, do convite do programa em Réquiem… e da companhia da filha e do grito dos fãs em O Lutador).

Mas o maior trabalho de Portman se dá, justamente, durante a transformação dessa bailarina virginal, frágil e meiga, assustada e sonhadora nesse ser, que só consegue se libertar nos últimos momentos do filme, mas o faz de modo inesquecivelmente poderoso e arrepiante. De modo contido e sutil, Portman aos poucos vai destrancando esse monstro de dentro de sua perfeição, se livrando dessa inocência, mas em momento nenhum rivalizando com a exposição da outra bailarina, vivida de modo igualmente forte por Lisa Kunis, que representa o lado escuro de sua pureza (vestida de negro e sempre pronta para satisfazer suas vontades e desejos), talvez até disputando espaço com a protagonista, mas, mais do que isso, sendo, exatamente, aquele mesmo reflexo fora dos espelhos, que ela tanto busca em seu Cisne Negro.

Portman dá ao espectador o prazer de acompanhá-la em sua transformação nessa criatura escuro, sem limites e barreiras, que toma o palco com suas penas sem cor, um olhar apaixonado e injetado de desejo e vida, violência e um mundo aos seus pés, em uma salva de palmas que só veio à custa da perda de todo resto que lhe impedia de chegar até aquele último salto do Cisne Branco em busca da redenção.


Black Swan (EUA, 2010), escrito por Mark Heyman, Andres Heinz e John J. McLaughlin, dirigido por Darren Aronofsky, com Natalie Portman, Mila Kunis, Vicent Cassel, Barbara Hershey e Winona Ryder.


Trailer do Filme Cisne Negro