Cinefilia Crônica | Você viu aquele…


Saí do cinema empolgado. Havia tempos que não tinha aquela sensação ao ver um filme de tanta qualidade. Era uma obra de arte. Se pudesse, pagaria uma cerveja para cada um dos responsáveis pelos 120 minutos arrebatadores que vivi. Andei mais rápido que o normal ao passar pelos corredores do shopping, com suas vitrines expondo promoções fajutas e vendedores tentando me convencer a comprar roupas desnecessárias. Tinha um compromisso a 20 minutos dali.

Peguei o taxi e me limitei a conversas protocolares com o motorista. Ele não tinha visto o filme, nenhum assunto seria interessante. Precisava chegar logo ao aniversário e me acomodar em uma mesa com salgadinhos e refrigerantes. Poderia encontrar alguém para conversar sobre a cena surpreendente no último terço do filme. Recomendaria a todos que não pensassem duas vezes na escolha do que assistir na telona. Sairiam extasiados das poltronas cheirando a pipoca com manteiga derretida.

Paguei a corrida e logo entrei na casa de muro alto com cerca elétrica e portão automático. As crianças se dividiam entre a barraca de algodão doce e a piscina de bolinhas. Cumprimentei os conhecidos, troquei poucas palavras sobre os jogos da rodada com o tio da aniversariante e me acomodei em uma mesa grande, com o velho grupo de amigos e amigas amontados no mesmo canto.

Perguntaram sobre os últimos trabalhos, como andava a saúde dos familiares, se estava saindo com alguém. Respondi e rebati alguns questionamentos para fingir interesse. Na minha cabeça, só havia um assunto interessante. E até me animei quando passaram falar da Netflix, foi o início de uma listagem do que havia de melhor no audiovisual..

Parecia um campeonato, no qual o vencedor seria definido por quem assistisse o maior número de episódios da série da vez em um fim de semana de folga. Eu era o único que suportava as letrinhas embaixo da tela. Estragavam o bom entendimento da história, disseram.

Quando contei a experiência de poucas horas antes de encarar as comidas gordurosas, os poucos comentários sobre minha experiência transcendental me desanimaram. Logo após a preciosa dica, comentaram sobre a inauguração de um novo restaurante na praça de alimentação sempre lotada do shopping. Então, passaram a tratar de financiamento de casa própria, agruras com chefes escrotos e a promoção imperdível no preço da carne. Poderíamos marcar um churrasco para a semana seguinte, cogitaram.

Ninguém ali poderia sentir o frio na barriga da reviravolta a cinco minutos dos créditos finais. A interjeição coletiva na sala de exibição mudaria a percepção sobre como o mundo real funciona. Não dava para explicar, apenas sentir.

Levantei para ir ao banheiro, disfarcei e fui para a calçada. Chamei um táxi e voltei para casa sem me despedir ou falar algo além do protocolar. Deitado na minha cama, procurei críticas e debates de especialistas sobre o filme. Não era possível que discordassem de mim quanto à força daquele monumento cinematográfico.

Senti pena dos que não terão a oportunidade de passar por aquela experiência. Dormi tranquilo e no dia seguinte acordei antes do despertador tocar. No serviço, estive mais calado que o normal. Não parei de pensar por um só minuto no que foi aquele filme, mas preferia não conversar sobre isso.

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