Cinefilia Crônica | Sozinho contra o mundo


Depois de quase ser morto pelos malvadões assassinos sanguinários, o protagonista não pensa em outra coisa que não seja dar o troco, se sentir vingado. Passa dias e noites treinando sozinho. Se preferir ser treinado por um mestre, este terá grandes chances de ser morto, aumentando a raiva do nosso herói, que compra ou rouba armas pesadas e muita munição. Com uma música de fundo, veremos a evolução em suas habilidades, com uma música de fundo expondo o antes e o depois da preparação.

O protagonista sai à caça.

Doladecá da tela, a expectativa aumenta e a cada passo dado também cresce a sensação de justiça feita contra tudo que nos tira a paciência e a vontade de seguir em frente. Só, contra um exército de lutadores bem treinados, o protagonista sai atirando e desferindo golpes contra os nossos boletos, metralha o chefe mala e os colegas de trabalho puxador de tapete, elimina bolsonaristas, não deixa fugirem os e-mails não respondidos, avisando-os que dali para frente as coisas vão mudar.

Curiosamente, é nessas horas que a mira dos oponentes falha. São disparados tiros à exaustão, mas no máximo uma bala raspa no braço ou machuca o joelho, aumentando o drama da vingança do nosso herói, agora manco. Haverá um capanga mais difícil de ser aniquilado, é claro. Ele é o braço direito do chefão e vem com sangue nos olhos, porque seu irmão mais novo, recentemente incluído na gangue, foi cruelmente assassinado pelo protagonista.

Como o expediente interminável de uma sexta-feira pré-feriado prolongado, sabemos que será uma luta mais difícil e por pouco, mas por muito pouco mesmo, o protagonista não vai passar dessa para a melhor (ou pior?).

A cereja (feita com chuchu e corante) do bolo será a luta final. O tempo todo engravatado, o chefão vai se mostrar um estrategista nato ou lutador de grandes habilidades. Eu sei, você sabe, nós sabemos que sua morte não pode ser rápida. Precisa ser épica e sofrida, pagando por toda aquela uma hora e cinquenta e poucos minutos de sangue escorrendo na tela. Menos sangue e tragédia do que nos programas do Bacci e do Datena, é verdade, porque temos um mínimo de bom gosto para filmes.

Após falar uma frase de efeito e jogar o chefão de um prédio, deixá-lo explodir sozinho numa sala isolada e sair correndo, ou mesmo jogá-lo de um penhasco, o protagonista reencontra alguém. Pode ser um novo amor ou o único familiar sobrevivente da desgraça motivadora do filme. Respiramos aliviados, deu tudo certo, valeu a pena.
Enquanto os créditos sobem a tela, voltamos para casa vingados. Como se o protagonista nos livrasse da miséria cotidiana. Dá até para cogitar a possibilidade de resolver os problemas mundanos comandando o exército de um homem só, passando por cima da vilania cotidiana.

Evidentemente, não existe a menor chance disso ser possível. Mas aproveitar uns poucos minutos de ilusão, solucionando tudo à base da porrada, é bom demais. Convenhamos.

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