Cinefilia Crônica | Novos reality shows


Não é de hoje que os brasileiros dedicam horas aos reality shows. Não importa o formato, sempre há audiência cativa para tretas, provas e desafios em que os conflitos humanos são motivo de alegria e indignação. Pensando nisso, depois de uma clamorosa chupinhada nas atrações já existentes, deixo minha contribuição com novos programas, ligeiramente adaptados ao gosto do público.

Não garanto audiência, bom faturamento e novos patrocinadores para os diretores das emissoras que apostarem na minha capacidade criativa. Sei apenas que há boas oportunidades de um entretenimento, ainda que de gosto duvidoso.

De Férias com o Ex (sócio): Participantes falidos depois de meses ou anos posando de empreendedores de sucesso são apresentados com cara de poucos amigos. Eles se encontram de surpresa em praias distantes. São proibidas as tentativas de afogamento para eliminar problemas do passado – por lei, inclusive. Papos sobre calotes, prejuízos, dívidas incalculáveis, SPC, Serasa e impostos são a diversão do público. Até porque o fim das sociedades e a terceirização da culpa pelo fracasso acaba com amizades e vínculos familiares, precisando urgentemente ser melhor explorado pela televisão tupiniquim.

De Férias com o Ex (presidente): Tudo bem, tudo bem, o formato é parecido com o anterior, eu sei. Dessa vez, os participantes irão conviver com um ex-presidente da República. O ápice da atração vem por meio das discussões sobre os rumos do país e a lavagem de roupa suja – nessas terras, isso é o que não falta. Todo fim de episódio soa melancólico, pois os participantes e espectadores sentem saudades de tempos melhores que os atuais.

Quilos de Saco de Cimento Mortais: Esqueça os tratamentos e dramas de quem precisa perder muito peso para a realização de cirurgias arriscadas. Aqui, participantes da classe média são convidados a trabalhar em obras com prazo de urgência para entrega. Devem carregar sacos de cimento, sem direito a carrinho de mão, para lá e para cá. Toda reclamação de dores nas costas é punida com atraso no pagamento, especialmente para os que desvalorizam o trabalho braçal e fazem piadas do jeito de falar dos pedreiros e afins.

The Vós: Ambientado em um asilo, no qual os familiares são obrigados a conviver com parentes idosos esquecidos ali, ouvindo suas histórias e sendo supervisionados por enfermeiras e cuidadoras, que avaliam o desempenho e definem os eliminados da semana. São punidos os que se irritarem com a repetição de assuntos dos velhinhos e velhinhas de pouca memória. O prêmio para os vencedores é não responder juridicamente pelo abandono de incapazes.

Master Chefe: Supervisores, coordenadores e diretores vão para a cozinha. Lá, encontram seus funcionários, que avaliam os pratos servidos no almoço e no jantar. Como tempero, muito assédio moral camuflado em comentários ácidos dos avaliadores. Chefes que obrigam subordinados a lhes chamarem pelo cargo que exercem podem ser xingados, sem dó. E se a comida ficar ruim, perdem o controle da empresa.

Concursados e Pelados: A vida dos servidores públicos vai sendo dificultada a cada semana, até o ponto em que não consigam pagar pelas roupas do corpo. Pelo visto, estão querendo copiar minha ideia.

Casa dos Desempregados: Muita gente se inscreveu para a casa mais vigiada do Brasil. Nela, os 12 milhões de participantes têm provas diárias para pagar o aluguel, luz, água, gás, comida e outras necessidades. O apresentador aparece de tempos em tempos. A cada eliminação, as tentativas de usar palavras bonitas se convertem em gafes terríveis, gerando rancor de quem não continua no processo seletivo. A previsão é que o reality siga na grade de programação por mais tempo que o previsto.

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