Cinefilia Crônica | ¿La casa de qué?


É raro um brasileiro que nunca foi vítima de violência. É mais raro ainda encontrar uma brasileira sem medo ao andar pelas ruas. Dos becos e vielas às avenidas asfaltadas e cercadas por muros altos dos condomínios de alto padrão, tudo pode mudar em um encontro indesejado. Assalto, bala perdida, agressão gratuita. Companhias desagradáveis do cotidiano. 

Quando me apontaram a arma prateada e me obrigaram a entrar no carro preto, pensei no pior. Repetia mentalmente a senha do cartão de crédito. Sou um esquecido. Temi errar, ser bloqueado pelo banco e morrer por culpa de quatro números. Encapuzado, me levaram para uma casa isolada. Percebi, então, ter sido sequestrado, não assaltado. 

Vocês pegaram a pessoa errada, minha família não tem condições, sou um pobre diabo, insisti. Tomei um senhor tapa de mão aberta e o zumbido irritante não me abandonou por minutos intermináveis. 

Tiraram o capuz e me jogaram em um quarto escuro e sem janelas, com uma SmarTV de companhia. Estranho, muito estranho. Os sequestradores entraram, usando máscaras com o rosto de Salvador Dalí. Fiquei ainda mais nervoso. Não por medo de uma agressão ou da morte. Temi algo pior. Ligaram o aparelho e me ordenaram silêncio. O controle remoto passeava pela Netflix

A tortura foi anunciada quando quando selecionaram La Casa de Papel. Desesperado, gritei. Não, não, por favor, tudo menos isso! Tomei uma coronhada que me calou. Fui amarrado a uma cadeira e me proibiram de fechar os olhos. Retaliação de algum texto meu, disseram, agora eu pagaria pela acidez corriqueira. E eu nem lembrava de ter escrito algo que merecesse tamanho castigo. 

Quem bate esquece, quem apanha lembra pra sempre, repetiu um dos capangas. Minha libertação só aconteceria depois de assistir por dez vezes consecutivas as três temporadas já lançadas da série espanhola. 

Vai chorar agora, por que não pensou nisso antes de publicar suas bobagens, me perguntou outro deles, em tom de sarcasmo. Seu chefe o ordenou que ficasse de olho em mim, poderia atirar se eu desviasse os olhos da televisão. 

Eu não merecia aquilo, não há castigo pior que aguentar por tantas horas as personagens com nomes de cidade, o sequestro arrastado e mal copiado de filmes como O Plano Perfeito, com Denzel Washington. O novelão enjoativo me fez pensar nos meus pecados, rezei para todos os santos, apelei às religiões mais conhecidas. 

Não parava de chorar ao recordar as reclamações do dia a dia e me arrependi de ter espanhol fluente, que me fazia compreender o enredo sem ler as legendas. 

O capanga me vigiava e ria da minha cara. Um frouxo, eu era um frouxo, dizia. Então assiste esse cara de óculos saindo todo sujo do ferro-velho. Ele viu a cena pavorosa e até sentiu pena de mim. Mas era um bandido e voltou à sua função ao perceber que eu tentava distraí-lo.  

A polícia invadiu o imóvel e fui libertado quando começava a quarta exibição consecutiva. Agradeço às autoridades pelo empenho na investigação, como é de praxe. Também sou grato à minha família por não desistir de mim. 

Tento seguir em frente desde então. Se vejo máscaras de pintores ou pessoas vestindo capuz vermelho, corro até o banheiro para vomitar. Ao me deparar com séries ruins fazendo um sucesso inexplicável, então, recorro aos ansiolíticos. Há crimes traumáticos demais, não desejo esse castigo nem ao meu pior inimigo.

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