Cinefilia Crônica | Disk final feliz


Recebi uma mensagem mal-educada pouco antes da meia-noite. Era o amigo entediado que pediu indicação de filmes para o período de isolamento social. Segundo ele, era inacreditável um cara inteligente como eu – recurso cordial para chamar alguém de estúpido, não se engane – sugerindo aquela aberração sem sentido.

O amigo entediado tinha uma indignação quase comovente. Não concebia que depois de 120 minutos viesse um final daquele, com o protagonista morrendo. Como assim, o protagonista morreu? Que final sem graça, triste, absurdo, estragou o filme, dizia na mensagem. Cogitei perguntar se ele não sabia que uma das regras da vida é essa: todo protagonista morre no final, que só é feliz na ficção. Desisti. Tentei argumentar sobre o desfecho ser coerente com a história, mas ele esbravejava cada vez mais. Eu era o culpado pelo desperdício de duas horas de vida.

Inocente, pensei que o final infeliz para os infelizes era assunto encerrado. Mas as redes sociais são maravilhosas, embora tenham o preço alto da gratuidade e livre acesso. No dia seguinte, me deparei com um post. Nele, um texto explicativo sobre o fim de outro filme, de mensagens supostamente filosóficas no enredo.

Me arrisquei a ler. Em todos esses anos nessa indústria vital, não imaginei que os insatisfeitos com um final aberto, livre para múltiplas interpretações, teriam a audácia de criar um guia. No texto despreocupado com o bom uso das vírgulas, um guru charlatão se dispunha a demonstrar por A+B o significado CORRETO do encerramento misterioso.

Era a papinha de neném de pais e mães zelosos para suas crias. Um amontoado de vitaminas necessárias está ali, dentro do simpático potinho de vidro. Ainda não há dentes para mastigar carnes, pães e bolachas. Por isso, os banguelinhas precisam de uma resposta pronta, ainda que ultraprocessada. Deve ser efeito dos tempos digitais, pensei. Ninguém se dispõe a admitir a mínima reflexão se ela não for autoajuda. As respostas precisam ser rápidas, simples de engolir. Haja terapia.

Se não há espaço para pensar um pouquinho, só um pouquinho, com uma historieta que foge do lema tiro, porrada e bomba, é preciso apelar à mensagem mal-educada reclamando do fim. Xingam muito no Twitter, comentam no Facebook, buscam um grupo dos chateados.

Será que os streamings já não pensam em um nova categoria em seu catálogo, a dos “filmes você decide”, com o final que o povo quer? Danem-se os roteiristas, diretores e produtores. A obra deixa de ser deles e precisa ser aprovada pelos sábios fãs clubes virtuais, sedentos por papinhas na ficção, para seguir adiante. Penso nas novelas e na franquia Star Wars.

Ou, quem sabe, ao dar play na película em meio a tantas opções, a campainha toca no começo do último ato. Um entregador, de moto ou bicicleta, tira da caixa verde ou vermelha a entrega de um final feliz, como solicitado por meio do aplicativo. Em caso de insatisfação, a Associação Nacional de Consumidores de Finais Felizes tomará as devidas providências.

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