Cilada.com

por Vinicius Carlos Vieira em 10 de Julho de 2011

Cilada.comO melhor jeito de resumir Cilada.com é como sendo um erro de semântica, já que o filme nada tem a ver com o seriado homônimo, não aproveita seus acertos (podia se chamar qualquer outra coisa), mas, por outro lado, resume perfeitamente a situação que o espectador encontra ao entrar no cinema com a expectativa de se divertir.

Dirigido por José Alvarenga Jr., que no cinema mais errou do que acertou com um punhado de filmes da pior fase dos Trapalhões (além das duas sequências para as telonas de Os Normais) e escrito pelo próprio Bruno Mazzeo, Cilada.com prefere então escolher deixar de lado a linguagem do seriado e se aventurar em uma comédia romântica qualquer e tremendamente repetitiva, já que a grande maioria das piadas parecem tiradas de um monte outras produções.

Para quem não teve a oportunidade de conferir (talvez por ser de um canal a cabo), Cilada nasceu com a idéia de mostrar esse personagem entrando em um numero enorme de roubadas dentro de situações cotidianas, só que com uma pitada non-sense, onde vez ou outra a própria história era interrompida por uma explicação técnica (e cínica) sobre o assunto ou alguma espécie de “pseudo entrevista” com alguma “pseudo autoridade” do assunto. Um formato fresco e cheio de vida dentro dos engessados programas de humor que o Brasil tinha que encarar.

É lógico que em algum momento a ideia de não tomar o caminho mais rápido e criar um grande capítulo em película até vá a favor de “Cilada.com”, mas tomar totalmente o caminho contrário faz ser difícil entender então o porquê de chamar o filme, justamente, com o mesmo nome do programa de TV (é lógico que nesse caso entram fatores de grana, que só prejudicam o resultado artístico). Sem esse jeitão Monty Phyton transloucado de quebrar a quarta parede e intervir na direção de seu público, o filme de José Alvarenga Jr. parece totalmente perdido e sem controle.

Nele, Bruno (Bruno Mazzeo) depois de trair a namorada (Fernanda Paes Leme) e ser descoberto por toda uma festa de casamento, acorda no dia seguinte e acaba descobrindo que um vídeo de sua intimidade foi colocado na internet como vingança na moça traída. Depois disso, Cilada.com é apenas um desfile de tentativas do próprio para limpar seu nome e reconquistar seu grande amor, enquanto o espectador é obrigado a lidar com uma quantidade enorme de piadas sem a mínima graça sobre ejaculação precoce e mais outra meia dúzia de escatologias sexuais.

Apostando em um riso rasteiro e sem esforço em situações banais, chega ao exagero de contar com um monte de palavrões na esperança de arrancar algumas risadas (coisa que já não funciona desde que falaram o primeiro em algum filme) e até a uma sessão de macumba exagerada e caricata, como se estivessem fazendo algo totalmente novo (isso sem contar com a presença do enorme Serjão Loroza espremido dentro de um carro minúsculo, situação que deixou de ser engraçado bem antes do primeiro palavrão).

Aqui um parêntese, não que tudo isso não funcione nunca, já que não são poucos filmes que apelam para as mesmas situações e conseguem ter sucesso, o problema aqui é a dependência de toda sequência em cima desses momentos. Um palavrão bem usado, um cara gordo dentro de um carro apertado e um macumbeiro (dentre milhões de outros clichês) são, na maioria das vezes, engraçados, é só tudo não depender daquilo, já que nesses momentos tudo fica óbvio e sem surpresa.

Não é a situação que incomoda, mas, por exemplo, sim a falta de tato na hora de, mais uma vez, contar a história do cara que confunde uma empregada com uma prostituta e, depois de um enorme diálogo cheio de duplo sentido, ele acaba esperando-a nu (e que levante a mão quem nunca viu uma cena dessas no cinema!).

Do mesmo jeito, não há como negar o mau gosto de ver o desperdiçado Fulvio Stefanini (com um visual à la Ray Coniff e a única piada sutil do filme inteiro) gritando (mais) palavrões para a filha de sete anos pelo telefone, de modo imbecilizado e sem o mínimo sentido, fazendo ser difícil até entender como aquilo poderia ser engraçado.

E, se ladeira abaixo, Cilada.com Cilada.comainda acaba se apegando ao conflito bobo e sem importância do cara que não consegue dizer “eu te amo”, tecnicamente tudo fica mais sem controle ainda, com o som direto das cenas externas fugindo dos diálogos, um show de coadjuvantes mal direcionados em cena, algumas apostas pobres como a de uma discussão preguiçosa entre silhuetas em um prédio (com o som vergonhosamente sem a mínima ambientação) e um monte de decisões esteticamente quadradas que só pioram a experiência de quem for ao cinema à procura de um décimo daquilo que, mesmo por um segundo, foi visto na TV.

Mas voltando aos problemas gramaticais, se dizer que Cilada.com é uma verdadeira cilada acaba sendo redundante, pelo menos (tendo o perigo de me repetir) é o que talvez melhor resuma o sentimento de grande parte do público na saída do cinema.


idem (Bra, 2011), escrito por Bruno Mazzeo, dirigido por José Alvarenga Jr., com Bruno Mazzeo, Fernanda Paes Leme, Mauro Mendonça, Serjão Lorozza, Augusto Madeira, Carol Castro, Fabíula Nascimento, Thelmo Fernandes e Fulvio Stefanini .