Chico Xavier – O Filme

Chico Xavier Filme

No ano do centenário de nascimento do famoso mediun Chico Xavier, nada melhor que aproveitar esse marketing “indireto” e fazer sua cinebiografia, a produção ainda está sendo lançada em mais de trezentas salas pelo Brasil, que, junto com uma propaganda massificada, fez dele o maior fim de semana de estréia de um filme nacional na história. É por isso tudo que Chico Xavier- o Filme é incriticável, mas de qualquer jeito vamos lá.

E antes de qualquer coisa, não, o novo filme de Daniel Filho não é ruim, conseguindo sobreviver entre mortos e feridos, muito graças a simpatia do protagonista e ainda por sua presença contemporânea na mente de todos, mas isso tudo, não sem antes quase derrapar em diversos momentos, por uma vaidade preguiçosa com que foi feito.

Se logo de cara ele pede ao espectador para não se preocupar com a história do personagem, que mal caberia naquele filme, mas que “ali estaria o mais importante”(ou algo do tipo), dá aí um verdadeiro tiro no pé assinando embaixo de um atestado de incopetência do roteiro, mesmo que ainda ele não seja de todo ruim, principalmente ao optar por ancorar todo filme em uma famosa entrevista que Xavier deu na extinta TV Tupi e passear pelo seu passado por meio de flashbacks. O que acontece é que, mesmo com uma duração de quase duas horas e meia, a impressão que fica é que alguns saltos entre épocas deixam vácuos na trama muitas vezes evidentes demais, com personagens desaparecendo e outros mudando de personalidade. Até o próprio protagonista não cresce sob seus olhos, já que a cada volta ao passado parece mais forte e complexo, mesmo que nenhuma ação, tão coerente assim, indique essa transformação. Em um momento, ele não sabe o que fazer com seus “poderes”, no outro faz exorcismos com propriedade e desenvoltura.

Talvez um cuidado excessivo com o livro e com a realidade resulte então em um medo de condensar situações e personagens de um modo mais fluído, fragmentando demais a narrativa em pequenas sequencias quase fechadas, mais como capítulos de uma obra literária do que como uma linha a ser seguida. “Primeira visão”, “Mãe”, “Primeiro contato com seu Guia”, “Primeiro Livro”, “Primeiro Paciente”, pedaços quase independentes que se preocupam muito mais em mostrar situações novas na vida de Xavier, do que no desenvolvimento mais consciente de seu caráter. Um roteiro que comenta sobre uma suposta vaidade do personagem como se aquilo fosse algo corriqueiro, mas se esquece de dar qualquer pista daquilo até presente momento (em compensação, depois disso, atola o espectador em referências). Como se contemplasse demais a figura e esquecesse da história em sí.

Ao final, ainda opta por uma subtrama envolvendo um julgamento, onde você male-male é apresentado a todos fatos que o precedem e que poderia ser resolvido com meia dúzia de linhas pré-créditos finais (e não com um sequencia sem importância nenhuma, que mostra o resultado, mas quase não o encaixa dentro do resto da trama).

Esse zelo com o personagem, sua história e a de todos a sua volta, ainda provoca um desastre ao não deixar com que ninguém no filme tenha nenhum defeito que não possa ser entendido e perdoado, em uma falta de antagonistas irritante, que, por mais que ajude a criar ainda uma personalidade simpática, bondosa e cativante do protagonista, acaba tornando toda trama um pouco arrastada e chata. Cassio Gabos Mendes aparece apenas como um padre sem muito coerência gritando aos quatro cantos sem muita sanidade (coisa que acaba se refletindo em uma critica desnecessária à igreja Católica), acompanhado apenas, no começo do filme, por uma péssima Giulia Gam, como madrinha de Xavier, ambos em participações muito pequenas que deveriam ocupar esse lugar de antagonistas, mas passam despercebidos.

E mesmo que, em geral, ninguém acabe tendo tempo suficiente na tela, todo elenco parece estar ali somente para dar espaço para as três atuações que permeiam a vida de Xavier, com o menino Matheus Costa, o adulto Ângelo Antônio e o já envelhecido Nelson Xavier. Três bons trabalhos que seguram bem o filme e só não deslancham por um medo de caricaturizar o personagem, característica que fica clara junto dos créditos finais acompanhados de imagens reais da entrevista, e que mostram um Chico Xavier muito mais reticente, afeminado e frágil, um desenho que nenhum dos três coloca em seus personagens (ainda que Ângelo Antônio se mostre muito mais esforçado em criar uma fisionomia semelhante). Um adendo ainda para a horripilante atuação de André Dias na pele do guia espiritual do protagonista, se tornando a figura mais antipática do filme.

A preguiça citada vem de uma estrutura sem graça e repetitiva que o filme se atrela, com flashbacks puxados por deixas teatrais (“lembro-me de quando era garoto” corta para imagem do personagem ainda menino e assim por diante) que sempre precedem um close-up em um dos monitores da sala tecnica do programa de TV. Além disso, provoca um estranhamento no espectador essa ausência total de qualquer contato de Xavier com qualquer espírito que seja, entre a visão da mãe no começo do filme e a aparição de seu guia, o espectador é obrigado a ver um personagem apontando e olhando para espaços vazios ao mesmo tempo que conversa com o nada. É difícil até, ao final do filme, o leigo no assunto apontar que tipo de contato o personagem tem, se visual, tátil ou auditivo com o dito “outro lado”.

Mas graças a simpatia do personagem e uma certa curiosidade com que todos vão ver o filme Chico Xavier- O Filme vai passar despercebido em todos esse erros e se tornar um dos grandes campeões de bilheteria do ano, independente de quem falar bem ou mal dele.


idem(Bra, 2010) escrito por Marcos Berstein, do livro “As Vidas de Chico Xavier” de Marcel Souto Maior, dirigido por Daniel Filho, com Nelson Xavier, Ângelo Antônio, Matheus Costa, Tony Ramos, Christiane Torloni, Pedro Paulo Rangel, André Dias e Luís melo.


1 Comment

  1. Bem, bem, sou também “À toa” – típico ateu -, como muitos dos que comentam e, ao saber há muito tempo que este filme era bom, hoje, em HD, tive a felicidade – e oportunidade – de perceber o interesse do Diretor – que também é ateu – em nos mostrar a figura interessante do citado e suposto médium. Se ele é ou não é o que aparenta, não importa muito, pois a força dos escritos supostamente psicografados são por si sós material suficiente a nos balançar em nossas crenças. Bom filme, recomendado, passa bem do começo ao fim em nossas cabeças e o todo, junto às atuações e trilhas gismontianas, nos dão ótimas mensagens de alento nestes obscuros tempos hodiernos! Assistam sim…

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