Cherry – Inocência Perdida | Filmes demais dentro de um só


É curioso analisar o que a dupla Joe e Anthony Russo fez depois que seus nomes foram parar no topo da lista de maiores bilheterias da história do cinema com Vingadores Ultimato. Só em 2019 e 2020 produziram quatro projetos que pareciam realmente interessados em arrancar do gênero aquilo que eles tinham de melhor (Mosul, Relíquia Macabra, Crime sem Saída e Resgate). Infelizmente não conseguiram fazer o mesmo na hora que voltaram à cadeira de diretores em Cherry – Inocência Perdida.

A produção tem cara de blockbuster e é uma das apostas do serviço de streaming da Apple para trazer mais assinantes e ganhar credibilidade como estúdio de cinema. Isso, com certeza é um esforço que deve surtir efeitos, já que a ideia do Tom Holland encarando um junkie ladrão de banco e ex-veterano de guerra, com certeza vai fazer muita gente procurar o Apple TV +. Para sorte deles, o catálogo do serviço tem bastante coisa que fará a assinatura valer a pena, porque Cherry não irá ser um desses.

Voltando ao filme, todas essas personalidades do Holland parecem filmes diferentes, mas estão no mesmo filme, e por mais que siga um encadeamento lógico e emocional que vai transformando o protagonista, ainda assim é muita coisa. Cherry parece ser um monte de filmes dentro de um só, mas são filmes diferentes demais, talvez até soltos demais dentro de suas intenções.

Essa bagunça toda parece vir da incapacidade do roteiro de Angela Russo-Otstot e Jessica Goldberg (adaptando o livro de Nico Walker) de contar uma história mais concisa e firme. O filme sobreviveria extremamente bem com algumas dezenas de minutos a menos. Na verdade, a ideia central de acompanhar esse soldado com transtorno pós-traumático mergulhando em um mundo de crime parece não ir muito além da superfície. É lógico que o espectador vai ver aquilo tudo acontecer e vai entender, mas falta sentir.

Cherry é um filme frio. Dividido entre capítulos que vão passeando por essa mais de uma década junto com o personagem, porém, nunca a motivação dele parece ser realmente sentida no momento em que ela está acontecendo. O grande amor de sua vida não parece ser o grande amor de sua vida, até ser tarde demais. Os traumas e terrores da guerra são piores quando lembrados, do que quando vividos. O vício não parece estar destruindo sua vida até que ele destrói. Entretanto, uma narração do personagem vai salientando esse sentimento que as imagens não conseguem passar.

Na verdade, a direção dos irmãos Russo não falha, apenas parece muito mais preocupada em criar um filme bonito e cheio de estilo, do que em chegar nesses sentimentos e emoções. A dupla de diretores ainda se refugia por trás de um esforço quase lúdico de construir alguns momentos de Cherry. De inserções de textos até a quarta parede sendo quebrada, sobra vontade de ser moderno, mas sem muito foco de onde isso irá levar. Existe ainda um bom humor esquisito na hora de chamar alguns personagens de algo que poderia ser traduzido por aqui como “sei-la-o-que” ou até no nome dos bancos serem “Bancos” (ou o banco pior ser o “Shitty Bank”) ou outras variações da piada, mas elas não chegam além desse lugar com jeitão de easter-egg.

Até o daltonismo do personagem se transforma em uma inserção visual em certo momento do filme, mas logo isso é completamente esquecido. O que demonstra o quanto os Russo estão preocupados com o visual daqueles pequenos momentos separados do filme, mas nunca com uma unidade maior de seu filme. Resumindo, vários pequenos filmes dentro de um mesmo, todos com muito slow motion e uma vontade enorme de ser muito maior do que eles realmente são.

Do outro lado dessa equação fica Tom Holland e todo esforço para criar um personagem que poderia ser complexo, mas é movido apenas por mudanças visuais pouco criativas e uma falta de desenvolvimento que não deixa nunca seu protagonismo alçar voos mais altos. Como se ele conseguisse se entregar para o personagem e seus vários momentos, mas sem nunca ter o material suficiente para aquilo ser do tamanho que poderia, ou deveria.

Cherry, assim como seu personagem principal, são produtos exagerados de uma vontade grande demais de ser uma espécie de épico humano sobre o quanto tudo pode dar errado movido por decisões erradas. Mas isso nunca se torna algo interessante o suficiente para que a longa duração do filme seja necessária. Um filme que tinha tudo para ser um blockbuster que poderia ser um dos melhores do ano, mas resulta em uma experiência mal polida e até meio chata.

Falta para os diretores Joe e Anthony Russo aprenderem um pouco mais com os produtores Joe e Anthony Russo, já que por lá, o trabalho da dupla de irmãos vai indo muito melhor do que enquanto tentaram voltar à cadeira de diretores.


“Cherry” (EUA, 2021); escrito por Angela Russo-Otstot e Jessica Goldberg, a partir do livro de Nico Walker; dirigido por Anthony Russo e Joe Russo; com Tom Holland, Ciara Bravo, Jack Reynor, Michal Rispoli, Jeff Wahlberg e Forrest Goodluck


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