Centurião

Por Vinicius Carlos Vieira em 22 de fevereiro de 2011

Duas coisas extrapolam “Centurião” de modo a não permitir que nem ao menos seu espectador se divirta: um roteiro que beira a falta de sentido e um diretor presunçoso o suficiente de achar que poderia conquistar seu público com tão pouco esforço. Ainda que, em ambos os casos, a culpa caia nas costas de Neil Marshall.

Marshall é um diretor inglês que despontou para o cinema com o terror “Dog Soldiers – Cães de Guerra” e logo depois fez a pequena obra de arte (dentro do gênero) “Abismo do Medo”, mas que, em algum lugar entre esses dois e hoje, pareceu perder toda habilidade. Pior, resolveu então, depois do desastroso “Juízo Final” fazer uma cópia canhestra e sem sentido do mesmo, só que durante o Império Romano.

Mais ainda, o diretor/roteirista acaba se perdendo em uma sopa de referências que não se dão ao trabalho nem de contar uma história interessante. Nela, depois de um ataque a uma fortaleza do império romano por uma espécie de tribo bárbara (meio vicking, meio escocesa, meio sem graça) o tal centurião do título, um soldado vivido por Michael Fassbender (de “Bastardos Inglórios”) é levado como prisioneiro. A história dá um tempo então para contar uma pouco desse batalhão de Legionários liderado pelo General casca-grossa vivido por Dominic West (que esteve recentemente como vilão da última tentativa de adaptação do personagem Justiceiro para os cinemas) que é mandado, justamente, para enfrentar, e acabar, com essa tribo.

Alguns pixels de sangue digital (o que parece estar virando moda pelo custo mais baixo) e algumas batalhas em câmera lenta depois, o General é capturado e o centurião acaba sobrevivendo enquanto tem que liderar alguns dos soldados enviados na Legião, não só para salvarem o refém, como para depois conseguirem voltar para casa. Junte isso a um par de traições, uma rastreadora muda atrás de sangue, um líder tribal a procura de vingança, uma fuga pela vastidão das montanhas (celebrada com muitas, mas muitas mesmo, tomadas aéreas) e “Centurião” está pronto para te fazer querer desistir dele no meio.

O descontrole narrativo de Marshall é tamanho que ele sente a necessidade de abrir o filme com um prólogo explicativo que mostra pouco (ou nada) que não seja descoberto depois, assim como não esconde a tentativa de desviar todas suas falhas, e até uma ausência de linha a ser seguida, com um monte de closes em decapitações e perfurações. Se de cara “Centurião” parece apontar para a sobrevivência daquele personagem dentro daquela tribo, depois se transforma em um filme de resgate (que lembra aqueles oitentistas que mandavam seus batalhões de volta para o Vietnã) e, de uma hora para outra, acaba parecido demais com o interessantíssimo  drama de guerra dirigido por Robert Aldrich “Assim Nascem os Heróis” (sem a mesma profundidade de seus personagens é claro) com esse grupo de heróis tendo que sobreviver em território hostil, perseguidos pelos vilões, enquanto tentam voltar para sua base (coisa que também foi mal copiada em “Juízo Final”).

Para fazer tudo isso caber em um filme de 90 e poucos minutos, o que Marshall faz é resolver esses muitos conflitos de modo apressado e sem peso, o que reflete mais ainda nos personagens principais, que acabam não sendo desenvolvidos em nenhum momento antes de surgirem vivos da batalha que os define como protagonistas (ou melhor, sobreviventes). É lógico que o tal centurião está lá dando às caras o tempo todo, mas é vergonhoso ter que ficar vendo-o indagar seus coadjuvantes a respeito de seus passados para criar suas profundidades ao redor de uma fogueira (como se até aquele momento nem o diretor soubesse realmente com quem ele contaria na ponta de sua história).

É lógico que no meio disso tudo é fácil um ou outro espectador se divertir com a ferocidade exagerado das imagens de Marshall, mas só nesses momentos mesmo, já que no resto do tempo todos vão ter que se contentar com uma vilã muda (Olga Kurilenko de “007 – Quantum os Solace”) que grunhe demais durante as batalhas, e até dá um grito em certo momento (além de ser a cópia menos sadomasoquista da vilã que dá as caras em “Juízo Final”), e um filme de aventura que parece não saber acabar e chateia demais no fim, quando deixa escapar o pouco ritmo que tinha e tem a coragem de apostar até em um romance.

A torcida que fica então é para que Neil Marshall perca todo dinheiro e fama, assim, quem sabe, consiga achar de volta aquela inspiração que o fez acertar no começo de sua carreira, mas sumiu do dia para a noite e vai piorando a cada filme.

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Centurion (RU, 2010), escrito e dirigido por Neil Marshall, com Michael Fassbender, Dominic West, Olga Kurylenko e Liam Cunningham

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