BugiGangue no Espaço | Falhas técnicas e referências perdidas em um fiapo de história

Bugigangue no Espaço Filme

BugiGangue no Espaço é mais uma tentativa do cinema brasileiro – e com dinheiro brasileiro – nas animações e na tecnologia 3D. O resultado é mais um filme que mira na mediocridade para nunca sair dos trilhos. Sua falta de ousadia no roteiro só rivaliza com sua capacidade de referenciar obras muito mais ambiciosas como Star Wars, Star Trek, E.T.. Sua animação cartunesca não oferece quase nada que se destaque de qualquer vídeo do YouTube. E o seu humor pitoresco quase traz à tona o instinto nacional de ser o eterno cão vira-latas das super-produções.

A história é um fiapo, o que pelo menos não dá espaço para (muitas) incongruências. Uma turma de crianças se envolve em uma confusão na escola e precisam passar o fim de semana juntos preparando uma maquete do sistema solar, quando uma nave alienígena cai em seu quintal. Todos ajudam a consertar a nave em troca da tal maquete e de uma aventura espacial onde o destino do universo está nas mãos da raça mais subestimada de todas. Juntos eles precisam libertar a congregação do tirano que pretende instaurar uma ditadura intergaláctica nos mesmos moldes de Darth Vader.

Ou quase, já que pelo jeito ele consegue seu feito no estilo golpe de estado: chegou lá e tomou. Aparentemente não há nenhum exército de nenhum outro povo, o que vai de encontro com as comemorações de 100 ciclos de paz entre os povos, onde é dito que as nações precisam cada vez menos de exércitos. Mas… nenhum?

Ale McHaddo é o diretor, roteirista e idealizador. Você talvez não o conheça, mas com certeza deve conhecer um CD-ROM de um jogo chamado Gustavinho em o Enigma da Esfinge, onde a atriz Marisa Orth fazia o papel da esfinge em um jogo de computador interativo. Se você não se lembra, deve ser jovem demais. De qualquer forma, “McHaddo”, ou Alexandre Machado, está no ramo há décadas, já tendo produzido e vendido inúmeros trabalhos feitos em computador, como Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma e A Lasanha Assassina. Nilba e os Desastronautas foi o primeiro desenho 100% nacional que passou na televisão norte-americana, e BugiGangue agora é mais uma de suas aventuras espaciais, dessa vez com o atrativo de ser em 3D.

Um 3D que, convenhamos, está aí mais para chamar a atenção do que em função da história. Com exceção dos créditos iniciais, onde vemos o artifício sendo usado para navegarmos entre pontos brancos, supostamente estrelas, e letreiros computadorizados, o resto do filme o aplica de maneira rasa, quase não sendo possível notar o momento onde os óculos são necessários.

Bugigangue no Espaço Crítica

O mesmo pode-se dizer das referências feitas de uma miríade de personagens, espaciais ou não. Esses personagens ou obras aparecem mais para tentar erguer nossa atenção através de algo conhecido em vez de fazer parte da história. Dessa forma, quando vemos durante a perseguição inicial uma figura que lembra alguém como Seu Madruga do seriado Chaves indo tomar um banho de piscina, a cena vira uma mistura entre cartunesco, humor pastelão e vergonha alheia.

É comum trabalhos menores referenciarem os maiores, mas aqui há um exagero em tentar tornar a aventura espacial em uma espécie de “Star Wars para kids”. Não há explicação, por exemplo, de por que um determinado personagem acaba virando rei de um povo em um planeta longínquo – nem o que eles estão fazendo nesse planeta – nem porque a raça mais subestimada “do universo” pelo tirano é a primeira que lhe vem à memória quando ele descobre estar sendo atacado. Da mesma forma, enquanto há trabalhos que sabem usar o clichê como humor, como Uma Aventura Lego, em que a lenda do escolhido vira uma alusão ao próprio clichê (“ah, agora tem uma lenda”), enquanto aqui ela vira uma frase jogada ao acaso e apenas para tentar dramatizar uma situação ridícula.

E mesmo que seja engraçado referenciar obras como Senhor dos Anéis e Star Wars, a trilha sonora usa isso como muleta a todo momento, fazendo questão de comentar cada movimento do filme com exageros. A música não consegue sequer evitar soltar o toque de O Poderoso Chefão quando um personagem diz que “irá fazer uma oferta que eles não poderão recusar”, terminando por vez de atingir o fundo do poço das referências gratuitas.

Já tecnicamente o trabalho possui o problema dos close-ups. O filme é incapaz de esboçar expressões nas caras de seus personagens, tendo que confiar em uma equipe mista de dublagem, com bons e maus momentos (Danilo Gentili, por exemplo, é um mau momento, mas que com o tempo acostuma-se). Isso se torna particularmente frágil no início da projeção, quando as crianças estão sendo apresentadas. Já durante as inúmeras cenas de batalhas e naves é um problema menor, ficando prejudicial apenas a falta de detalhes gráficos.

Porém, aqui o diretor Ale McHaddo consegue desempenhar um papel satisfatório. Enquanto estamos vendo cenas de ação e planos mais gerais, seja por imitação de outras obras ou competência técnica, o filme consegue fluir e quase nos esquecemos de suas deficiências narrativas. No momento em que os personagens precisam falar algo importante ou contar mais uma piada ruim, o filme desaba um pouquinho mais.

Dessa forma, BugiGangue é um experimento interessante, mas nunca consegue se desvencilhar de suas limitações técnicas e artísticas. O uso do computador aqui mais que atrapalha que ajuda, já que ele é mais usado como um fim (produzir um filme) do que um meio (esboçar uma ideia). E, se olharmos mais de perto, é um filme que não se separa o suficiente de um medíocre jogo eletrônico.


“Gadgetgang in Outerspace” (USA, 2016), escrito e dirigido por Ale McHaddo


Trailer – BugiGangue no Espaço

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