Branca de Neve e o Caçador

Em 1937 a Disney lançou Branca de Neve e os Sete Anões e provavelmente é essa imagem que paira em sua cabeça quando alguém se refere ao conto de fadas dos irmãos Grimm (na verdade saído da tradição oral da Alemanha antiga), por isso mesmo, essa ideia é tão forte que é necessária muita coragem para tentar recontar essa história. Ainda mais quando isso passa por uma certa modernização como Branca de Neve e o Caçador se presta.

Mas bem diferente do recente (e desastroso) Espelho, Espelho Meu, Branca de Neve e o Caçador, filme de estreia de Rupert Sanders, e estrelado por Kristen Stewart no papel título, se leva a sério e acaba conseguindo resultar em uma experiência concisa e, se não divertida e empolgante, pelo menos bem longe de chatear qualquer um.

Não chateia por um ritmo interessante que move a trama de modo dinâmico, continuo e linear, não é preciso motivações e mais motivações a todo instante, tudo se resolve de modo acertado logo no começo e empurra a trama até seu fim. Nela, nada muda muito da versão clássica (outro acerto) e Branca de Neve é uma princesa que acaba sendo aprisionada pela Rainha Ravenna, que casa com seu pai e lhe rouba o trono. O espelho continua lá para dizer quem é “mais bela do que ela” e ao mesmo tempo em que a resposta se torna “Branca de Neve”, a jovem consegue fugir para a Floresta Negra, e é ai que entra o caçador.

E talvez mais importante que tudo isso seja perceber o trabalho cuidadoso com que o roteiro do trio Evan Daugherty, John Lee Hancock (de Um Sonho Possível) e Hussein Amini (do ótimo Drive) amarra todas referências clássicas à história, o que, sem dúvida nenhuma, é um alívio para quem vai ao cinema em busca daquela mesma história que conheceu em sua infância (e que, normalmente, parece sempre ser motivo de vergonha em filmes recentes como Robin Hood e Rei Arthur). Dessa vez, tudo esta lá, e sempre de modo sutil e coerente.

Até mesmo a importância do caçador (Chris Hemsworth), que no original é passageira, aqui, ganha mais espaço, mas sem nunca interferir na trama. É verdade que ele acaba roubando o espaço narrativo que poderia ser dos anões, protegendo Branca de Neve e ajudando-a a se vingar da Rainha, mas ainda nada que, simplesmente, não siga aquele famoso “sinal dos tempos”.

Em um mundo cético como o de hoje, a fantasia sempre é encarada como um vilão de qualquer filme que queira se levar a sério, e um bando de anões (que ainda apresentam uma escolha de elenco bem interessante, e que foi diminuída digitalmente ao invés do uso de atores diminutos) defendendo uma princesa só atrapalharia o filme a chegar a esse objetivo. Ainda no mesmo assunto, é a presença do caçador que dá ao espectador a única grande diferença da história (e aqui vai um spoiler), já que os tempos atuais parecem renegar a ideia machista de um príncipe encantado beijando uma defunta que nunca viu na vida.

Ainda sobre o beijo (e com spoilers) é fácil entender a preocupação com que o próprio caçador é apresentado, como esse bêbado, turrão, cheio de respostas espertas e com a barba à fazer (além de um passado sofrido e triste que lhe levou à tudo aquilo), encarnando então um outro estereótipo, o do anti-herói. Esse, muito mais moderno do que o príncipe encantado, esse mesmo que tomou o lugar nos sonhos das mulheres modernas.

Mas por sorte, esse pequeno triangulo amoroso (Branca-caçador-príncipe) quase nem acontece direito, e, de modo corajoso e eficiente, a personagem principal segue um rumo independente e quase solitário, já que encara seu destino como “escolhida” e parte para cima do trono que é seu por direito. Talvez ai então resida o único problema realmente incômodo de Branca de Neve e o Caçador (e não é o trabalho pífio de Kristen Stewart, já que isso ninguém desconfiaria do contrário). No afã de criar essa heroína, é difícil encarar, sem mal-estar nenhum, um certo lado “cristão” que escorre pelo filme, quase como se tentasse pintar uma espécie de Joana D`Arc em Branca de Neve ao rezar o Pai Nosso em uma masmorra escura e suja e, no final das contas, liderar um exército para libertar o reino da Rainha Má (alguns mais chatos ainda podem até se irritar com sua ressurreição em panos brancos alguns dias depois de sua morte e o discurso para os súditos, lembrando que a única coisa “bíblica” que falta é depois disso ela “ascender ao reino dos céus”).

E Branca de Neve e o Caçador ainda esbarra uma espécie de excesso emocional cheio de olhos lacrimejantes e momentos exagerados, o que pouco condiz com um roteiro repleto de diálogos incapazes de dizer algo que não esteja acontecendo ali na cara do espectador. Isso e ainda um certo desequilíbrio estrutural que faz a história perder tempo com alguns detalhes sem a mínima importância, como a presença de um Troll e até de uma aldeia de mulheres, ambos momentos que servem, principalmente, com combustível da personalidade de Branca de Neve, mas através de detalhes que poderia ser introduzidos de modo muito mais eficiente, como, por exemplo, diálogos de verdade (como acontece na presença dos anões).

E até quando o assunto é a ótima Rainha Má (vulgo Ravenna), em um trabalho estonteante de Charlize Theron, os diálogos não melhoram, e olha que a atriz sul africana se esforça. Mas mesmo cheia de frases óbvias (que talvez nem incomode tanto quem conseguir encarar tudo isso com a simplicidade de um conto de fadas) o trabalho de Theron é o que mais se destaca no filme (e não só pela fraqueza do resto do elenco, fora os anões), tanto por sua construção quanto pela percepção do diretor do quanto é mais interessante vê-la em cena do que ter que aguentar a “canastrice” de Stewart e Hemsworth.

Theron não só tem um contexto para trabalhar (e até um flashback só dela, para explicar um pouco de onde vem sua “juventude” e como o feitiço funciona), como extrapola qualquer possibilidade caricata da personagem e vai em busca da maldade, de um desequilíbrio ensandecido, de uma beleza fatal, mas que num fundo é sempre atrapalhada por uma tristeza em seus olhos, como se essa busca pelo poder e pela imortalidade ainda assim não ocupasse esse vazio enquanto perambula sozinha pela sala de seu trono.

E uma das razões a que Branca de Neve e o Caçador acaba funcionando é também (mais uma vez) o cuidado, só que com o seu visual, já que, mesmo sem manter o arroubo do pequeno prólogo cheio de slow motion e personalidade, (que é narrado pelo caçador, mas que depois que some, não faz falta nem sentido), no resto do tempo, entrega um filme belíssimo, tanto em termos de efeitos especiais, quanto nos figurinos e até na direção de fotografia livre até para se deixar explodir em luzes e cores, além de contrastar de modo inteligente os “dois mundos” do reino. Assim como ainda resolve certos problemas visuais, como o do famoso espelho, de modo inteligente e interessante, e se permitir até criar seu “pequeno e eficiente pesadelo” através da tal Floresta Negra.

E eficiência talvez seja mesmo a palavra chave de Branca de Neve e o Caçador: eficiência na hora de contar de um jeito novo uma história que todos já conhecem e eficiência para manter vivo o espírito do conto de fadas (e todas referências), permitindo então que aquela velha história ganhe vida mais uma vez.


Snow White and the Huntsman(EUA, 2012) escrito por Jason Evan Daugherty, John Lee Hancock e Hossein Amini , dirigido porRubert Sanders, com Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Charlize Theron, Ian McShane, Bob Hoskins, Ray Winstone, Nick Frost, Sam Spruell, Sam Claflin e Toby Jones.


Trailer

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