Bollywood Dream

*Crítica parte da cobertura da Mostra Cine Brasil Cidadania

Antes de qualquer coisa, Bollywood Dream é uma experiência. Daquele tipo que te coloca não na pele do espectador, mas dentroBollywood Dream Poster dessa história, ora segurando a câmera, ora talvez compartilhando dos passos dessas três personagens. Enfim, do jeito que for, mas sempre uma experiência.

E se parte disso vem da estética da diretor Beatriz Seigner, com sua câmera quase subjetiva encarnando um quarta personagem nessa aventura, o resto desse sentimento ainda vem com a verdade que seu roteiro faz questão de passar. Por mais que Bollywood Dream possa até parecer um pequeno documentário, em nenhum momento perde o rumo e a organização de uma trama que faz sentido no final das contas, e não só um apanhado de imagens e momentos.

Nesse caso, momentos da viagem dessas três amigas à Índia e um único objetivo: se eles fazem 800 filme por ano lá, por que não tentar ganhar um grana como atrizes em suas produções? Com esse único “sonho” em mente, o trio então parte sem muito preparo, se metendo em uma série problemas cotidianos, mas sem nunca se separarem na busca por essa oportunidade.

E é justamente essa premissa curiosa que deve ser a responsável principal pela simpatia imediata que Bollywood Dream provoca. Da curiosidade que o espectador terá em conhecer um pouco mais não só da riquíssima cultura indiana, como um pouco dessa indústria cinematográfica gigantesca e que, para o lado de cá do Oceano Atlântico, parece ser ignorada. Por sorte, o roteiro, também de Seigner, percebe que a palavra-chave é “pouco” e não se esconde de soar muito mais preocupada com suas personagens do que em transformar seu filme em um guia de curiosidade de Bollywood, que está lá, mas ao fundo, discutida e servindo de gancho, mas nunca no foco da história.

Esse afastamento permite então que se acabe o filme com a impressão de conhecer a Índia e até sua famosa indústria cinematográfica movida à dança (como seus deuses), mas, mais do que isso com a certeza de ter conhecido e compartilhado do sonho dessas três amigas. E não só os sonhos, mas também encarado uma das verdades do que acontece quando se encontra às portas dele (do sonho), já que como um dos personagens indiano faz questão de indagar, o objetivo e o caminho precisam estar em sintonia, por que o caminho sempre continua (por mais que você não vá chegar ao final dele).

Bollywood Dream

Mas esse caminho também tem algumas derrapadas, principalmente no que diz respeito a uma montagem que não decide que rumo tomar, e um segundo momento que se perde um pouco em uma contemplação filosófica que não parece “grudar” no resto da história. Ainda que interessante e cheio de sabedoria, encarar a vida, a dançarina nos tempos antigos e “…tudo mais” soa frágil e perdido dentro do resto da trama, que quando foca no que realmente interessa consegue fazer o mesmo, mas com muito mais sutileza. Como nas conversas com o personagem que é dono do bar onde as personagens estão hospedadas e até na lindíssima sequência ondem acompanham uma espécie de procissão ao Deus Ganesh.

Um segundo momento que não parece combinar com a ótima mistura de sensibilidade, bom humor e espiritualidade do resto do filme. E são nesses momentos de acertos que Bollywood Dream mais se destaque, tratando tudo de modo tão verdadeiro e crível que faz ser impossível não acabar o filme com a certeza de ter vivido toda essa viagem, assim como seus ensinamentos e decisões. Por mais que nem sempre o sonho seja aquele mesmo que o seu caminho te leva.


Idem (Ind/Bra/EUA, 2010), escrito e dirigido por Beatriz Seigner, com Paula Braun, Nataly Cabanas e Lorena Lobato


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