Bob Cuspe: Nós Não Gostamos de Gente | Bem-vindos à mente do Angeli


Bem-vindos à mente do AngeliBob Cuspe: Nós Não Gostamos de Gente é mais ou menos isso, uma espécie de Adaptação e Quero Ser John Malkovich com um cartunista velho, um punk sem paciência e uns mini mutantes com a cara do Elton John.

Parece caótico, e é. Como sempre foi o trabalho do Angeli. E só isso já torna essa animação algo obrigatório para os fãs do artista e de suas décadas de criações malucas. Uma espécie de “Ageliverse”, já que grande parte desses carinhas estão por lá no filme. Tudo isso de modo metafísico e existêncial.

A animação em stop motion dirigida por Cesar Cabral já chega ao Brasil com um currículo de dois prêmios internacionais, um no festival de Annecy e outro em Ottawa. Com certeza isso fica ótimo no cartaz, mas não é só por isso que você deve ir ver o filme. A ideia é realmente divertida, a realização é bem acima da média e toda essa doidera é imperdível.

O filme começa com uma espécie de gravação de um documentário, com o próprio Angeli falando sobre seu trabalho. “Próprio”, mas nem tanto, já que Cabral “leva a sério” o assunto, mas com os bonecos agindo como se fossem humanos e as soluções visuais e narrativas pedindo por essa verdade. O clima é divertido por um cinismo e uma naturalidade que ultrapassam o esperado.

Por um lado, talvez só isso já valesse a pena, já que a construção desse Angeli é incrível. Mas diante de uma crise entre ataques de “rabugentice” e fugas para não atender a Larte no telefone, Angeli decide matar o Bob Cuspe. E se alguém realmente não gosta dessa ideia é o próprio Bob Cuspe.

A mente de Angeli é uma espécie de deserto pós apocalíptico onde os irmãos Kowalski se esgueiram pelos esgotos enquanto tentam entender os sinais do Criador. Do lado de fora, uma horda de mini mutantes com a cara do Elton John estão preparados para matar todos. Mas dupla acaba salva pelo próprio Bob Cuspe… ou “O Escolhido”. E ele não vai deixar essa história de matar o Bob Cuspe em vão, o que faz com que o trio parta para o Vale do Ego, onde ele poderá passar a limpo tudo isso com o próprio Angeli.

Na verdade não “o próprio”, mas sim sua versão em animação. Um mundo dentro do outro… dentro do outro. Tudo dentro da cabeça do Angeli e de Cesar Cabral. O resultado é uma maluquice só, o que é o claro objetivo do filme. “Baseado em fatos reais da obra fictícia do cartunista Angeli”, como diz a abertura da animação.

Mas o próprio Angeli parece cansado de seus personagens, “não é mais o mesmo Angeli”. Se enxerga no próprio Bob Cuspe “com mais ética e sem nunca ter sido um punk raivoso”. Portanto, matar o Bob Cuspe seria o mesmo que se matar. Mas os Kowalski, Rê Bordosa e os Eskrotinhos também não são ele? A próprio Rê Bordosa agora está em um altar construído pela Larte e talvez ainda seja um fantasma para Angeli… “mas ele não é mais o mesmo Angeli”, o que quer que isso signifique na prática.

Todo esse existencialismo se agarra aos bonecos de stop-motion de modo hipnótico. As personalidades dos personagens são incríveis.  E a trama não demora muito e cai de cabeça em uma psicodelia maluca misturada com beijo grego, uma cartomante e um velho cartunista.

Bem-vindos à mente do Angeli.


“Bob Cuspe: Nós não Gostamos de Gente”(Bra, 2021); escrito por Cesar Cabral e Leandro Marciel; dirigido por Cesar Cabral; com vozes de Angeli, Milhem Cortaz, Paulo Miklos, André Abujamra, Grace Gionoukas, Laerte Coutinho e Beto Hora


Trailer do Filme – Bob Cuspe: Nós Não Gostamos de Gente

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