Beasts of No Nation | Beasts of No Nation é praticamente um documentário em forma de ficção

Beasts of No Nation Filme

Beasts of No Nation é praticamente um documentário em forma de ficção. E só se trata de uma ficção porque sequer sabemos o país em que vive o pequeno Agu, interpretado por Abraham Attah, intenso e inesquecível. E, se formos sinceros, não saber onde se passa a ação é o menor dos detalhes de uma experiência que vai se tornando, assim como Attah, intensa e inesquecível, embora infelizmente.

Narrando a história do menino do parágrafo acima, o filme se propõe soar genérico sobre vidas ao relento que devem ocorrer muitas e muitas vezes nos países do continente africano. Quando se lê no título que não há nação que hospede essas “bestas selvagens”, rapidamente nos lembramos da Somália, que hoje pode figurar entre os países sem um governo centralizado bem definido. Porém, se formos contar os países do continente negro em guerra civil nos últimos anos, a lista pode se extender para Nigéria, Congo, Sudão, Líbia e tantos outros. A questão que o filme coloca vai mais além. Ele parece mais falar sobre uma região que não comporta a ideia de país, algo que foi forçado pelo próprio processo de colonização europeia, e como consequência hoje vemos os intermináveis conflitos entre milícias armadas e sanguinárias, financiadas por capital estrangeiro para se apoderar de suas riquezas naturais.

Sim, é clichê, e, sim, é formulaico (e com grandes chances de se revelar falso). Porém, preste atenção em algo menor. Preste atenção em Agu, um ser humano, garoto, que nasceu em um vilarejo e que vive com sua família em paz e harmonia com o pouco que possuem. Agu e seus amigos conseguem se divertir com o esqueleto de uma televisão, tentando vendê-la como a “TV da imaginação”, criando programas ao rodar do antiquíssimo botão de troca de canal. No final, acabam trocando por comida com o exército nigeriano. O vilarejo está na iminência de uma invasão, mas isso não impede que eles se divirtam em um jantar em família. No fundo, existem duas realidades sendo mostradas aqui: a primeira, de uma vida livre, plena, sem amarras e que se sente prazerosa só de olharmos para seus moradores dançando de olhos fechados. A segunda realidade, a do instinto brutal, violento, assassino e irracional do homem com sede de poder, que organiza exércitos, formais ou não, para conquistar mais território.

Tal qual os conquistadores da antiguidade, esse é o objetivo desses indivíduos: se tornarem o próximo governo da região. Até chegarem na civilizada cobrança de impostos, terão que partir para métodos mais… diretos. Como assassinatos em massa, estupro, pilhagem. Todos que se colocarem no caminho estão à mercê desse sistema primitivo do mais forte. Existem basicamente duas opções: se juntar a eles ou morrer.

E o destino de Agu, naturalmente, é a primeira opção. Destituído de sua família de maneira brutal, ele se vê na floresta impossibilitado até de conseguir saber o que comer. A direção de Cary Joji Fukunaga (da primeira temporada de True Detectives) entra aí, nos pequenos detalhes que visualmente conseguem explicar mais que diálogos. Quando vemos Agu se encontrar com a milícia comandada pelo eloquente e ardiloso Dike (Idris Elba), não precisamos ouvir o garoto, pois seu pensamento é claro: “preciso de ajuda para sobreviver, e essa é a única forma”.

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Além disso, o roteiro, também de Affadzi, consegue nos transportar para reflexões a respeito dos terríveis eventos que esse menino protagoniza, e assim como Buscapé em Cidade de Deus, ouvimos pontualmente seu pensamento, como um narrador onisciente revivendo sua experiência em tempo real, sempre tendo como base o que Deus estará pensando dele de lá de cima. Suas frases são como tijolos sendo arremessados ao espectador, que não consegue sequer conceber fazer parte daquele pesadelo, quanto mais sendo uma criança.

Agu sendo o elo mais fraco entre aqueles seres humanos lutando como animais em busca de sobrevivência, Dike é o elo mais forte daquele grupo, e mesmo ele empalidece frente ao seu comandante. E este mesmo é apenas um mandante de forças externas, algo bem óbvio e que mais uma vez a direção (e o roteiro) fazem questão de ressaltar isso sem um diálogo expositivo sequer. O próprio Dike se sente traído, e isso é vital para que entendamos as reais recompensar de agir feito um animal, e como tudo é desconstruído sem o disparo de uma bala.

Beasts of No Nation, salvo um ou outros momentos manipulativos, é um exemplar raro da cinematografia naturalista, que já deu origem a obras-primas como Pixote (Hector Babenco, 1981). É intenso visualmente ao mesmo tempo que tece uma trama tão comum quanto bestial nos dias de hoje. Mais uma vez: infelizmente.


Beasts of No Nation” (USA, 2015), escrito por Cary Joji Fukunaga, Uzodinma Iweala, dirigido por Cary Joji Fukunaga, com Abraham Attah, Emmanuel Affadzi, Ricky Adelayitor, Andrew Adote, Vera Nyarkoah Antwi


Trailer – Beasts of No Nation

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