Bastardos Inglórios | Uma grande “Nazi Standoff”

Bastardos Inglórios Filme


Se para muitos o cinema de hoje parece navegar em um marasmo acomodado pela bilheterias, apontando uma ausência de obras e cineastas mais icônicos (coisa que eu discordo), Bastardos Inglórios está aí para provar exatamente o contrário, com Quentin Tarantino fazendo mais uma vez o que ele sabe fazer de melhor: Cinema.

Não que o diretor coqueluche da década de 90 tenha parado de fazer isso em algum momento, mas só agora, quatro filmes depois de sua obra máxima, Pulp Fiction, aquela vivacidade (ou talvez uma maturidade cinematográfica) lhe permita fazer algo perto de seus dois primeiros filmes. Não uma babaquice indulgente a cerca de seus filmes serem apenas um treinamento para essa grande obra, diminuindo esse período, mas sim pelo imenso contrário: Quentin Tarantino parece preocupado em constituir uma carreira no cinema inpecável e diversificada na medida dos grande diretores da história.

Mas talvez, sua grande diferença hoje seja o quanto cresceu, cinematograficamente falando, e o quanto parece dominar perfeitamente suas imagens, seus olhares e aquele silêncio que sempre acompanhou os grandes mestres da sétima arte. Tudo isso sem perder todo aquele jeitão exploitation que permeia suas produções, cômico exagerado e delicioso, cheio de referências e estilo.

Se depois de um tema a lá Ernio Morricone saído de algum filme de faroeste você encontrar uma frança ocupada pelos nazistas, um batalhão de judeus americanos escalpeladores, um oficial da ¿SS¿ um tanto quanto esquisito e o cinema como arma máxima contra o Terceiro Reich, não se surpreenda por que, por trás disso, tudo pode ficar mais maluco ainda. Mesmo que Tarantino não te deixe desconfiar de nada que venha na próxima cena, talvez pela sua fama ou, mais ainda, por um controle preciso de sua própria narrativa.

Tarantino arma um tabuleiro de xadrez que espera seu xeque-mate e para isso, separa seu filme em episódios distintos e pontuais, que juntos se afunilam para o final apoteótico. Diferente de seus outros filmes, onde brinca com o tempo e o espaço de suas estruturas narrativas, aqui o diretor, e roteirista, encara uma opção linear, só que a dividade em episódios que se juntam para formar sua história. A grande vantagem disso é conseguir conceber cada sequencia não como um curta metragem independente, mas com um fragmento, ou como diriam pelo interior um ¿causo¿ narrado por algum contador de histórias. Uma estrutura que ainda possibilita que cada pedaço do filme tenha sua ¿apoteose¿ dentro dele mesmo, mas que só funciona graças a referências de um outro pedaço. Um filme onde todos são apresentados com o peso de um personagem principal, já que naquela sequencia é extamente o que eles são.

E essas introduções continuam sendo uma deliciosa marca registrada de Tarantino, como ao sermos apresentados ao Coronel Hans Landa, ou ¿O Caçador de Judeus¿. Em uma estupefata criação de Christoph Waltz, Tarantino presenteia a platéia com uma das melhores sequencias iniciais que o cinema já viu, deixando Alfred Hitchcock com um sorriso no rosto (onde quer que esteja) ao desconstruir todo mistério da localização da família Dreyfuss em um suspense onde o espectador consegue sentir o sabor de cada palavra inquisitava do coronel, em um duelo sufocante com um final anunciado.

Mas talvez sejam esse duelos que mais marquem o filme, esses mexicans standoffs (tipo de confrontamento entre personagens com suas armas apontadas entre si) que aparecem sempre presentes em seus filmes, mas aqui levado ao limite, já que praticamente o filme inteiro é composto de suas releituras. Como se Tarantino formulasse sua estrutura para acomodar, em todos momentos, personagens se desafiando sobre um fio tênue de violência (física e psicológica) e sobrevivência. A todo momento que os Bastardos Inglórios do título, comandados pelo Tenente Aldo Raine (um Brad Pitt caricato e divertido que só não explode pois fica pequeno perto das participações do próprio Waltz e da francesa Mélanie Laurent) aparecem, estão a frente de um imbróglio, sejam tentando convencer um soldado nazista a contar onde estão suas tropas, ou na magnifica sequencia na taverna, que termina em tiros, mas extrapola em um mexican standoff desde seu início.

A outra ponta desse triângulo formado por Tarantino é a próprio sétima arte, já que ele parece ser a engrenagem principal de seu filme, em parte talvez representada pela presença de um cinema em sí como local para sua sequencia final, mas que, bem verdade, parece empacotar todo experiência. O diretor desconstroi certezas em seu próprio estilo para possibilitar uma narrativa mais rica, se permite discutir a própria existência do mexican standoff dentro de seu filme, ao mesmo tempo que dirige uma morte entre dois personagens (em uma sala de projeção) como se estivesse filmando uma cena de amor. Além disso, é sincero ao extremo de permitir que todos falem em suas linguas originais, traduzindo-os por meio de outros personagens e até pedindo permição (talvez para o espectador) para falar em um indioma que não é o seu de origem (inglês no caso). Tratando o espectador quase como um alibi de suas loucuras cinematográficas.

E é justamente essa homenagem ao cinema o mais delicioso de Bastardos Inglórios, já que toda sua estrutura parece tentar mostrar como cada lugar encara seu cinema, em uma crítica bem humorada e divertida. Enquanto Hitler e Goebbels usam o cinema como um propaganda heróica de um soldado que represtará um país (na verdade rídiculo e cômico, presente nos extras do DVD e dirigido por Eli Roth, o ¿Urso Judeu¿ dos Bastardos e diretor do Albergue), a francesa (Laurent) traça o plano para sua vingança usando a própria película, não sem antes criar todo um mise em cene da filmagem e montagem de uma pequena mensagem para os presentes, em um trabalho meticuloso e perfeccionista (francês). Por outro lado os inglêses mandam seu melhor crítico de cinema em uma missão explosiva, com direito até a sabatina de seus conhecimentos cinematográficos testados pelo próprio Churchill, mas que acaba se dando mal diante de sua própria pedância, deixando tudo nas mão do americano, herói de guerra, judeu, bom de briga com apelido de filme de faroeste (¿Aldo o Apache¿) e que resolve tudo com um taco de baseball (o ¿Urso Judeu¿) e muita munição (além de um péssimo tom para sotaques).

Um bom humor que deixa seus filmes leves, mesmo recheados de sangue e violência, fatores que continuam a permear, com propriedade, os ótimos diálogos do diretor, com linhas ainda geniais e que sempre parecem a espera de entrar para o imaginário popular. Mas talvez, o que mais vá colocar Bastardos Inglórios na lista de grande clássicos, seja a coragem de Tarantino em entrar com o pé na porta da realidade e desconstruí-la a favor de sua história, criando não só uma vingança judia que Spielberg e Polanski não teria coragem nem de imaginar, como mostrando que ainda há no cinema espaço para os devaneios deliciosos de uma cinema sem amarras como o dele.


Inglorious Basterds (2009, EUA/Ale) direção: Quentin Tarantino com: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Bruhl e Til Schweiger


4 Comments

  1. Pingback: Os Oito Odiados
  2. Amigo Fred, só li seu comentario agora por acaso. Fecha essa latrina, você não entendeu porra nenhuma do que viu.

  3. Naum gostei do Bostárdos Inglorios filme parado,sem graça bem estilo ao ator ”gostosão” brad pitt gosta de fazer.E sincerament eu dirigiria filmes melhor q esse quenti tarantino os filmes dele são uma piada cara

    obrigado pelo espaço!

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