Ava | Ninguém aguenta mais essa mesma história


É uma pena que Ava seja uma porcaria. Tinha ferramentas para ser um thriller interessante e cheio de possibilidades, mas acaba sendo um filme de ação meio vagabundo e sem muita vontade de entregar algo além do medíocre, ainda que o pessoal envolvido pudesse criar alguma expectativa.

A história é velha e Hollywood já está até meio cansado dela desde que Bourne e os velhos de RED fizeram tanto sucesso. Jessica Chastain é Ava, uma assassina profissional de uma agência misteriosa qualquer que se torna um perigo para seus chefes e passa a ser perseguida por eles enquanto “tira umas férias” em sua cidade natal, Boston, e visita a família.

Além de Chastain, o filme ainda está cheio de ex-agentes que foram perseguidos por seus chefes em outros filmes. John Malkovich é o mentor de Ava e já foi perseguido em RED. Colin Farrell vive Simon, espécie de chefe da organização, e perseguido por seus chefes, justamente, no ótimo Na Mira do Chefe. Por fim, Geena Davis agora é a mãe de Ava, mas em 1996 já viveu uma “agente adormecida” em Despertar de um Pesadelo. Mas isso tudo só serve de curiosidade mesmo, já que ninguém está ali para salvar o filme ou para ser lembrado.

Ava é ainda dirigido por Tate Taylor, mesmo do fraquinho Ma e do completamente equivocado Histórias Cruzadas. Sua falta de experiência em filmes de ação fica bem clara em Ava, nada ali parece funcionar para criar aquela sensação de tensão, fora as cenas de ação completamente mal coreografadas, amadoras e sem emoção. Já nos momentos em que tenta criar uma dinâmica nos diálogos, falha ainda mais com as linhas e mais linhas de exposições de um roteiro sem o menor interesse em ser minimamente novo e não mastigado.

O texto fica com Matthew Newton e o resultado é algo que realmente acredita ser muito maior do que é. Não existe uma trama complexa, mas o roteiro trata certas reviravoltas como se pudessem explodir a cabeça de seus espectadores, mas não dão nem cosquinha no sono que provocam. Ava tem um passado de vício, então surge em uma reunião do AA vinda do mais absoluto lugar nenhum para poder contar para alguém sua história com o pai, fazendo com que algo que poderia transformar a personagem soe burocrático e entediante.

Já a trama em si, da ação por ela própria e dessa vontade de ser um thriller de espionagem com agências secretas e assassinos com códigos numéricos extensos, Ava só repete uma fórmula cansada com duas missões para mostrar a capacidade da personagem, uma perseguição no meio da noite e ainda uma grande cena de ação em uma boate clandestina que só serve de desculpa para uma porradaria, já que dentro da trama, poderia ter sido deixada de lado.

Mas o problema maior é a trama apostar em juntar tudo isso e colocar no colo de uma personagem que você demora tempo demais para descobrir que está vivendo um conflito interno que poderia ser mais poderoso. Quando você percebe isso (obviamente em um diálogo expositivo), o filme já se foi embora e essa autodestruição dela não tem tempo de delimitar a personagem, já que logo acaba enfrentando o vilão principal em uma luta ruim.

Um desperdício de talento dos atores, principalmente de Chastain, que não faz nada de muito interessante no filme inteiro, mas principalmente um desperdício de uma ideia que iria humanizar a trama e que poderia ser mais sobre personagens, justamente como os fãs do gênero já viram em filme como RED, Na Mira do Chefe e O Despertar de um Pesadelo. Portanto, fiquem com os outros trabalhos do elenco e se divirtam muito mais.


“Ava” (EUA, 2020); escrito por Matthew Newton; dirigido por Tate Taylor; com Jessica Chastain, John Malkovich, Common, Geena Davis, Jess Wixler, Ioan Gruffudd, Diane Silvers, Joan Chen e Colin Farrell