Atração Perigosa

 

Não é novidade nenhuma que o galã Ben Affleck ficou muito mais famoso por sua canastrice assumida do que por seu Oscar como roteirista de Gênio Indomável, do mesmo jeito que, nos últimos anos, acrescentou ao seu currículo a função de diretor com seu Medo da Verdade. Agora, em seu segundo filme, Atração Perigosa, mostra que esse “afã” também resulta em algo melhor que seus anos de interpretação.

Na história, a partir do Best Seller de Chuck Hogan The Prince of Thieves, depois de um assalta a banco, um dos assaltantes acaba se apaixonando pela gerente levada como refém enquanto tenta vigiá-la dias depois. Bem verdade, por mais que a trama finja ser sobre esse amor (assim como o, mais uma vez mal escolhido, título no Brasil também finge), o que tanto Affleck, quanto provavelmente o livro (suponho, já que não li), querem mesmo, é mostrar a história desse personagem afogado por opções com um mesmo destino trágico anunciado. E é esse dinamismo que faz o filme valer a pena.

Doug McRay (Affleck) e seu bando nasceram e viveram em Charlestown, um bairro de Boston conhecido por suas famílias de ladrões de bancos e carros-fortes (como o filme diz em seus créditos iniciais). Todos ali compartilham do passado de terem visto seus pais estragarem suas vidas no crime e acabam jogados nesse vórtice sem terem como sair. É justamente esse contexto que faz com, de um modo deturpado, os heróis aqui sejam esses criminosos, que celebram o passado com um brinde àqueles que foram presos e mantiveram a boca fechada. Amigos fieis.

Na ponta dessa relação o personagem de Affleck tem como parceiro seu amigo de infância (Jeremy Renner) e companheiro de trabalho. É daí que sai o principal combustível que move o filme. Em poucos segundos, mesmo debaixo de assustadoras máscaras de caveiras, a direção de Affleck já faz questão de criar essa dinâmica onde seu protagonista só é atravessado pelo jeito meio psicótico de Renner, sem medo de apelar para a violência ou “dar um jeito” na refém. O que vai de encontro ao cerebral e emocional “herói” de Affleck.

E como o filme é sobre ele, nada é economizado, partindo então para um protagonista cheio de profundidade. Um viciado regenerado, sóbrio, brindando com seu suco, mas sabendo que vai ter que se livrar de um outro vício. Mais difícil ainda de ser deixado de lado. Um vício que ainda é completado por uma Síndrome de Estocolmo inversa, onde ele parece estar ali diante da personagem de Rebbeca Hall quase para se desculpar pelo trauma que a causou. Um bom moço tragado pelas fatalidades de uma vida de crimes, mas que tenta se redimir.

Por outro lado, Atração Perigosa parece preocupado em mostrar, justamente, que essa quase vilanização do personagem de Renner vem dessa mesma conseqüência de uma falta de esperança. De olhar para frente e não ver uma saída possível sem ser a da tragédia inevitável, o que resulta em um personagem pintado em dor e tremendamente profundo.

O problema de toda essa complexidade da trama, é que o roteiro (do próprio Affleck com Peter Craig e Aaron Stockard), parece não dar conta do acúmulo de conflitos que pretende desenvolver. A consciência do protagonista, sua vontade de largar tudo e o problema dele com o amigo ao descobrir seu romance com a refém, há ainda o FBI em suas colas e ainda o conflito da própria namorada quando ela descobrir a verdade, sem esquecer o dele com o tal florista (um gangster local vivido pelo ótimo Pete Postlethwaite). Tudo exposto e devidamente fechado (é preciso lebrar), mas sem o peso que em certos momentos eles pareciam ter ao serem apresentados. Se por um lado, isso parece ser uma sinceridade do roteiro em não forçar essa ou aquela trama, por outro, como no caso da tatuagem do amigo e da campana do FBI, parecem desleixados e com soluções pueris e desinteressantes.

O mesmo roteiro ainda não demonstra toda sua força ao ter que optar por soluções totalmente melodramáticas como “últimos trabalhos” e “não vou mais voltar para a cadeia”, que lógico, funcionam como um clichê deve funcionar, mas parecem ser caminhos tomados de forma apressada diante de personagens bem desenvolvidos.

Mas tudo isso talvez passe despercebido, ou seja ignorado pelo espectador, diante do bom trabalho de Ben Affleck como diretor, se movimentando de forma leve por suas sequencias e sem parecer tentar impor um estilo, somente preocupado em contar uma história. Tecnicamente preciso (sem muita firula é verdade), mas sempre bem posicionado. Em seus enquadramentos ninguém sobra, nem o espectador corre o risco de não entender o que esta acontecendo. Não didático, muito menos tecnicamente impressionante, apenas preocupado com o que quer mostrar e correto na medida.

Mas essa “medianização” não pode ser considerado um defeito, mas sim um plano, como o de um assalto. Affleck sabe do material que tem em mãos, sabe que só conta com uma estrutura que não surpreende e por isso parece optar por ir em busca de um thriller policial  competente e nada mais que isso. Isso fica claro quando se percebe sua habilidade nas sequencias de roubos (pontuais, uma no começo, outra no meio e uma para fechar tudo) em que ele consegue usar da geografia do lugar totalmente a favor de suas sequências, de modo caprichado e firme. Portanto, fica fácil perceber que, com um material mais estruturado e interessante, como tinha em sua estreia Medo da Verdade, ele, muito provavelmente, optasse por um resultado mais sensível. O que, mais que qualquer coisa, mostra um diretor pronto para alçar vôos mais altos, que sabe suas limitações, onde pisa e até onde pode ir, sem se expor pora fora disso. Do jeito que Hollywood e seus produtores adoram.


The Town (EUA, 2010), escrito por Peter Craig, Ben Affleck e Aaron Stockard, a partir do livro “The Prince of Thieves” de Chuck Hogan, dirigido por Ben Affleck, com Benn Affleck, Rebecca Hall, Jon Hamm, Jeremy Renner, Blake Lively e Pete Postlethwaite


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