Assalto em Dose Dupla

É impossível não separar o cinema por gêneros, e poucos deles tem a capacidade de se contentar com tão pouco quando as comédias. Entre toda prepotência intelectual de Alexander Payne e a mais pura baixaria escatológica estrelada por Rob Schneider, existe uma gama enorme de exemplos medianos sem pretensão que funcionam, justamente, por serem, digamos, mediano. Assalto em Dose Dupla faz isso com conhecimento de causa.

Escrito por Jon Lucas e Scott Moore (de filmes como Se Beber Não Case e Surpresas do Amor) e dirigido por Rob Minkoff (O Rei Leão, Stuart Little e A Mansão Mal Assombrada), Assalto em Dose Dupla é um espelho das carreiras do trio, com alguns picos de diversão, alguns vales profundos e tediosos, mas que, na maioria do tempo, acaba sendo, na falta de sinônimo melhor, “bacaninha”.

Nele, Patrick Dempsey (que depois de virar galã na série Greys Anatomy, agora tem a oportunidade de deixar aquele “loser” do começo de carreira voltar à tona) é um cara qualquer que entra em um banco no exato momento em que ele (o banco) está para ser assaltado por duas quadrilhas ao mesmo tempo. O problema é que tudo acaba então se tornando mais que um simples roubo e Dempsey é o primeiro a começar a desconfiar disso.

De modo pouco inspirado a dupla de roteirista, então, facilita a vida do filme ao dar a Dempsey essa espécie de autismo leve, ou até uma série de TOCs (transtornos obsessivos compulsivos) que deixaria o detetive homônimo da série Monk com orgulho, e que, por um segundo, até criam um suspense suficiente para que sua platéia se interesse por essa espécie cômica de “Detetive”, onde o tabuleiro é esse banco e o assassino só pode ser um dos reféns, ou bandidos, presentes.

A direção de Minkoff ainda ajuda, pelo menos em primeira instância, ao procurar sempre esses ângulos e movimentos de câmera “à la” Guy Ritchie e, sem sombra de dúvida, criar um filme que, logo de cara, entrega o que promete: uma comédia visual, cheia de personagens divertidos, um misterioso assassinato e um punhado de reviravoltas. Para a infelicidade de Assalto em Dose Duplaesse clima não consegue durar todo tempo, e logo que as peças se posicionam nesse tabuleiro tudo se torna esticado demais e repetitivo, o que impede que, no fim de tudo, uma suposta grande surpresa, faça tanta diferença assim para o espectador, que, provavelmente, naquele ponto já se cansou um pouco de fisgar iscas falsas.

Assalto em Dose Dupla sofre então de um mal que não perdoa muitas comédias desse estilo (que se “fantasiam” de um gênero, nesse caso o de um certo suspense) e acaba dando a impressão de um número muito grande de buracos no roteiro, como se não se permitisse (afim de não perder o ritmo) explanar demais sobre certos assuntos, o que faz então com que o espectador saia do cinema com impressão de que todos personagens ali sabiam muito mais do que aparentemente deveriam e tomam decisões que pouco tem a ver com seus caráters.

É verdade que quem se deixar levar por toda farsa da situação e toda confusão, se divertir com os estereótipos (os dois ladrões caipiras vividos por Pruitt Taylor Vince e Tim Blake Nelson são o mais interessante do filme) e for ao cinema à procura de soluções de comédia física (frágeis, mas que pouco atrapalham), vai sair do cinema com essa impressão de que Assalto em Dose Dupla não é nada demais, mas tampouco nada de menos.


Flypaper (EUA, 2011), escrito por Jon Lucas e Scott Moore, dirigido por Rob Minkoff, comAshley Judd, Patrick Dempsey, Jeffrey Tambor, Pruitt Taylor Vince, Tim Blake Nelson, Mekhi Phifer e John Ventimiglia


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