As Invisíveis | Atestando a existência dessas mulheres


As Invisíveis é uma dramédia alto astral com momentos comerciais que fez com que ele contratasse um batalhão de atrizes em moldes semelhantes à série Orange is The New Black, onde cada personagem tem suas idiossincrasias, enriquecendo e humanizando a história. Dirigido por Louis-Julien Petit, que já trabalhou na segunda e terceira unidades de vários filmes de Hollywood, este é um filme que mescla bem seu drama de “filme de arte” com seu lado mais blockbuster. E é isso o que fez com ele fosse um sucesso de público na França, não o fato de ser protagonizado por mulheres.

Cada uma de suas personagens tem algo a acrescentar nesta coleção de pequenos dramas, e você com certeza conhece ou já ouviu falar de uma pessoa com pelo menos alguns dos problemas das mulheres retratadas neste filme, e isso tem muito a dizer sobre humanização. Apesar deste ser um filme sobre sem-tetos, a empatia surge ao percebermos que seus problemas não estão tão distantes do nosso próprio dia-a-dia. É revigorante olhar para essas mulheres e ver que elas lidam melhor com as dificuldades do que nós dentro de nossas casas. Todos somos seres humanos, mas os humanos deste filme são mais fortes e resilientes.

Não é possível destacar uma ou outra do elenco porque este é filme de protagonismo coletivo. Apesar do roteiro esboçar uma ou outra personagem com algum arco dramático, principalmente na equipe de asistentes sociais que estão prestes a perder seu espaço de convívio, este é um trabalho de expressão coletiva. As histórias se misturam, e muitas vezes é difícil se lembrar quem é quem, enquanto é mais fácil saber quem pode o quê.

O roteiro foi escrito por Julien Petit e Marion Doussot baseados no livro de Claire LajeunieSur la route des invisibles – Femmes dans la rue” (em tradução livre: “Na estrada do invisível – Mulheres na rua”). Lajeunie chegou a dirigir e escrever um documentário uma década atrás sobre as mulheres de rua. Situação calamitosa nas ruas, 40% dos sem teto atualmente são mulheres na França, e embora o longa evite mostrá-las sendo vítimas de violência e abusos, apenas a insinuação por diálogos soa ambivalente, pois enquanto parece uma piada nos lembramos que infelizmente pode ser verdade.

Ao usar o nome de celebridades femininas em vez de seus nomes reais, este universo onde mulheres ajudam mulheres se torna mais suportável das conhecidas mesquinharias do mundo feminino. Elas estão cientes das humilhações por trás da velhice, do desemprego e do gênero, e umas ajudam as outras sem lembrá-las que suas chances de seres felizes novamente neste mundo é mínima. Elas aprenderam a ser auto-centradas em um mundo que lhe dá as costas.

A figura mais icônica é uma senhora que conserta qualquer eletrodoméstico. Aprendeu em um curso enquanto estava presa por ter matado o marido que a batia. Ela coloca a honestidade acima da chance de ter um emprego, e com isso mantém para si a sua honra e dignidade. É um exemplo invisível em um filme que dá mais voz ao empoderamento do que ao mérito dos que se mantém vivos apesar de.

Se há uma protagonista é uma moça que vive com o irmão e que se desdobra para encaminhar cada uma de suas órfãs da vida. Ela as segue quando vão procurar emprego e monta um workshop para que se provem suas habilidades em fazer algo da vida. Essa é uma pessoa que não tem outra vida exceto a de ajudar às outras, e sabemos que ela irá despencar sem ter alguém para ajudar.

Recheado de momentos vergonhosamente deliciosos onde um bando de mulheres vive apesar de muitos percalços, As Invisíveis é uma ode às pobres anônimas que sequer possuem endereço no mundo. Muitas não pediram para estar nessa situação, mas a abraçam como seu verdadeiro lar. Este não é um filme com a solução para elas, mas um atestado de suas exisências.


“Les Invisibles” (Fra, 2018), escrito por Marion Doussot e Claire Lajeunie, dirigido por Louis-Julien Petit, com Patricia Mouchon, Khoukha Boukherbache e Bérangère Toural.


Trailer do Filme – As Invisíveis

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