As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada

Mesmo com todos os acertos de As Crônicas de Narnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada é improvável que a serie de livros escritos por C.S. Lewis continuem a ser adaptada (a não ser com um milagre das bilheterias, o que não deve acontecer, já que os dois cronicas-de-narnia-posterprimeiros não dão muita esperança de um acerto logo aqui). O surpreendente disso é que, sem sombra de dúvida, esse terceiro não só é melhor que os dois, como, se dependesse de seus próprios méritos, merecesse até uma sequencia, mas sem muita empolgação.

Talvez tenha sido a entrada em um novo estúdio, já que a Disney desistiu do projeto e a Fox acabou apostando nele, ou, mais provavelmente a presença de Michael Apted (Nas Montanhas dos Gorilas e 007 – O Mundo Não é o Bastante entre outros) na cadeira de diretor, no lugar que era de Andrew Adamson.

Logo de cara, Apted se mostra seguro e plástico o bastante para ver o logo da Walden Media (empresa que produz a série) se transformar em um vitral de uma torre e deixar sua câmera deslizar pelo ar até chegar a um pôster de alistamento militar, o avião passando ao fundo é só mais uma dica de que o mundo continua em guerra, e é esse capricho narrativo que realmente move A Viagem do Peregrino….

É lógico que a história é praticamente a mesma, com as crianças voltando à Narnia para salvar aquela terra encantada, e o espectador provavelmente nem entre no cinema esperando outra coisa, a diferença aqui é que, além da eloquência narrativa (que não desperdiça um segundo de apresentação), toda trama parece muito menos óbvia e anunciada. Nada da chegada deles para salvar o lugar, por um segundo ninguém nem realmente sabe o porquê deles estarem ali, o que possibilita que o roteiro acabe guardando uma ou outra reviravolta.

Não surpresas, mas sim uma possibilidade maior de olhar para seus personagens, que agora não são mais os quatro irmãos órfãos, mas apenas os dois mais novos com o primo, e ainda a companhia do Príncipe Caspian (do capítulo anterior) com a tripulação do tal Peregrino da Alvorada que resgatam os três do mar (ainda que ela não seja absolutamente aproveitada em nenhum momento, fora uma rápida luta logo no começo) .

A diferença dos anteriores continua quando se percebe que, mesmo o grupo acabando por estar lá para salvar tudo e todos, esse objetivo acaba muito mais maquiado por uma aventura que tem mais cara de Simbad, Jasão e os Argonautas ou até dos mais recentes Piratas do Caribe do que das Crônicas… em si. Em nenhum momento o trio de roteiristas Christopher Markus, Stephen McFeely e Michael Petroni tenta fugir da mitologia de Lewis, e muito menos Apted faz qualquer coisa nesse mesmo sentido, o que eles parecem focar, e acertar na mosca, é se distanciarem muito mais que os outros dois de uma grande batalha final para mover a trama. Aqui, a ideia é ir em frente, de ilha em ilha, tentando chegar a seu destino (que lógico aponta para uma suposta batalha, mas de um modo muito mais natural e fluido). O que possibilita ainda que o espectador se divirta em um dinamismo maior de conflitos e personagens, como dragões, feiticeiros, monstros marítimos e uma espécie de anão com um pé só. Por mais que o roteiro não se preocupe muito em motivar seus personagens a irem em frente, criando poucas desculpas (ou nenhuma) para que o quarteto de protagonistas sempre se desprenda do resto da tripulação, afinal só eles precisam de testes.

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Mas o fundo religioso/cristão de Lewis continua lá, talvez até não sendo percebido por quem não saiba de sua existência (por mais que o leão Aslan, dessa vez, não tenha a mínima vergonha de esfregar sua existência divina na cara do público), mas ainda assim, a luta contra o mal, a batalha de cada personagem contra a tentação, o orgulho, seus desejos podendo ser realizados (junto com custo de cada decisão) e mais um monte de provações, até acabam casando com o tom aventuresco, o problema disso é que do momento que se vê a primeira referência, todo resto começa a pular aos olhos, o que pode chatear muito gente. Principalmente quem não está preparado para uma pequena catequização (já que como o próprio Aslan diz, “Em seu mundo eu tenho outro nome, o importante é não renunciá-lo”).

Mas ainda que pareça se esforçar A Viagem do Peregrino… não decola justamente por não poder (ou não querer) renegar esse lado, que lá para o final acaba totalmente piegas com feixes de luz clareando o céu quando o bem vence, uma mesa como uma ceia pronta para homenagear Aslan e até uma estrela que leva os três Reis de Nárnia em direção aos seus destinos. Assim como uma estrutura repetitiva, que acaba tornando o filme lento demais, já que sua trama não consegue sair do esquema que apenas deixa intercalar chegadas a ilhas desconhecidas com o a viagem do navio, para chegar a novas ilhas desconhecidas etc.

E por mais que Apted consiga até fechar tudo com uma luta interessantes e empolgante contra uma criatura marinha, em que uma montagem paralela dá até um ótimo ritmo para a sequencia, em outros momentos esbarra em erros contemplativos, como em cada passeio que dá com sua câmera ao redor do navio (coisa que é sempre repetida depois que eles saem de uma ilha). Além, de um desleixo enorme em deixar o tal monstro marinho sair da imaginação de um dos personagens quando todos são indicados a “não pensarem em seus medos”, exatamente do mesmo jeito que o fim do primeiro Caça-Fantasmas, imitando até a cara de “eu não pude evitar”, imortalizada por Dan Arkroyd na época.

As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada se for o último da série, pelo menos acaba com uma “certa honra” por tentar fazer algo diferente, mas, por outro lado, acaba se desfazendo como um castelo de cartas pelas mesmas razões que seus antecessores.


The Chronicles of Narnia: The Voyage of the Dawn Trader (EUA, 2010), escrito por Christopher Markus, Stephen McFeely, Michael Petroni, a partir da obra de C. S. Lewis, dirigido por Michael Apted, com Georgia Henley, Skandar Keynes, Bem Barnes, Will Poulter e vozes de Simon Pegg e Liam Neeson