Army of the Dead | O zumbi de capa


Por que um zumbi usa uma capa? Tudo bem, não é uma resposta fácil de encontrar em lugar nenhum. Se o novo filme do Zack Snyder, Army of th Dead, vai lá e aposta nisso, isso não quer dizer que a resposta esteja dada. Infelizmente esse não é o único questionamento que você terá com essa nova produção da Netflix.

Na verdade, são duas horas e meia de uma trama sem pé nem cabeça e que se constrói através de uma desculpa babaca para colocar um monte de brucutus armados dentro de uma Las Vegas cheia de zumbis. Para o nosso azar, o que acontece em Vegas, nesse caso, não fica em Vegas, e o desastre estará pertinho de você, ao alcance de seu controle remoto.

Portanto, a “tentação do play” vai ser grande, afinal, é uma grande produção, cheia de dinheiro, muitos zumbis, um jeitão de “filme de roubo” (que rouba umas inspirações de Aliens 2 e Fuga de Nova York), com o simpático Dave Bautista na ponta do elenco e a promessa de ser a volta de Zack Snyder ao mundo onde ele não estraga nenhum filme de super-herói. Agora é hora de fazer o mesmo com os zumbis (destruir).

Curiosamente, o próprio Snyder, para quem não lembra, estreou no cinema com os mortos-vivos no remake, Madrugada dos Mortos. A diferença entre os dois está nas intenções. Enquanto no primeiro o roteiro de James Gunn (sim, o mesmo dos Guardiões da Galáxia) tentava reimaginar o original para os dias atuais e manter a personalidade da mensagem, Army of The Dead, escrito pelo próprio Snyder em parceria com Shay Hatten (John Wick 3 – Parabellum) e Joby Harold (Rei Arthur: A Lenda da Espada), só quer mesmo é descarregar bala em todo mundo.

Mas não se engane, isso podia até ser bem legal. Que não é o que ocorre aqui. Na verdade, acontece sim, mas dura tão pouco que chega a ser uma pena. O filme começa com o exército dos Estados Unidos fazendo besteira e liberando nas cercanias de Las Vegas uma espécie de soldado zumbi. O que vem depois disso você pode imaginar, a cidade no meio do deserto americano se torna um apocalipse divertido, colorido, repleto de sangue, Elvis Presley e caça-níqueis.

Snyder (que também é diretor de fotografia), em parceria com o montador Dody Dorn, faz esse prólogo ser o ponto alto do filme. O visual é divertido, o slow motion funciona, e o mais importante, constrói esse mundo. Pouco a pouco, entre um ataque de zumbi e outro, vão surgindo os futuros heróis do filme, todos sobreviventes dessa invasão zumbi e com a situação fazendo com que eles se transformassem em verdadeiros soldados. Ao final do ótimo prólogo você ainda descobrirá que a cidade foi isolada… e também que a única parte legal do filme tinha acabado junto daquele container que fecha a passagem.

A premissa do roteiro é ainda interessante, com esse ex-dono de cassino (Hiroyuki Sanada) procurando o ex-sobrevivente da invasão zumbi, Scott Ward (Dave Bautista) para uma missão: chegar ao cofre do cassino e “resgatar” alguns milhões de dólares antes que o Governos dos Estados Unidos exploda todo o lugar com uma bomba nuclear. Para isso, Ward, junta então um grupo de amigos para completar o trabalho.

Isso inaugura também um desfile gigantesco de personagens absurdamente bidimensionais e com especialidades e personalidades que praticamente não são usadas no resto do filme. Além ainda de mal desenvolvidos e esperando por mortes bobinhas e sem criatividade. Fora o tanto que acredita na capacidade de Dave Bautista de ser um ator sério, não é, quando não está brincando com a própria imagem ou descendo porrada em vilão, o ex-astro da luta livre tem as nuances dramáticas de um pedaço de mármore. Apostar nisso beira o fracasso dolorido de ter que ver o protagonista buscando um choro onde não existe emoção.

A história é esperada e óbvia, assim como Snyder mantém uma capacidade estética muito maior do que suas possibilidades narrativas. Army of the Dead se esgueira por um fio de trama tão frágil que não dá conta nem de resolver as sementes que vai plantando. O filme parece tomar um cuidado enorme para tratar da divisão de dinheiro entre os personagens, mas isso não é mais nem lembrado. Até os próprios zumbis não estão por lá em nenhum momento que não seja o prólogo.

O que nos leva ao zumbi com capa. Ele tem nome, Zeus (Richard Cetrone), e assim como ele, Las Vegas é então o reinado desses “alfas”, que são uma desculpa para as criaturas conseguirem se comunicar, terem senso estético e escolherem a melhor roupa (?), correrem (isso tudo bem!) e desviarem de tiros (sério!). Esses “zumbis parkour” (ou se você preferir “zumbi Matrix”) são a versão Zack Snyder da sua incapacidade de entender o arquétipo que estão trabalhando. Depois de mostrar o quanto não entendia os super-heróis, tirou a capa deles, colocou no zumbi e deixou claro que esqueceu também o que representam aquelas criaturas filhas do George Romero.

Pelo menos a trilha sonora é bem legal… e só isso mesmo. O resto é zumbi com capa e essa vontade enorme do cineasta de exagerar na violência (e nesse caso no gore… o “bebê zumbi” é de um mal gosto enorme!), para demonstrar que está tentando renovar ou repensar o gênero, sem nem ao menos parar por um segundo para tentar compreender o que ele significa ou poderia significar. Quase como se batesse ainda na mesma tecla idiota de que “filme pra adulto” precisa ser violento.

Army of the Dead não é sobre zumbis, mas sim sobre um diretor querendo provar um ponto através do choque e não de suas capacidades artísticas. Acreditem, em algum lugar existe sim um Zack Snyder que conseguiria a façanha de fazer um bom filme, mas ela está enterrada sob esse ego lubrificado com um séquito de fãs cegos. Como zumbis … e talvez então ele é que esteja com a capa urrando uma mensagem que só eles entendem. O que talvez explique essa história de zumbi com capa.


“Army of the Dead” (EUA, 2021); escrito por Zack Snyder, Shay Hatten e Joby Harold; dirigido por Zack Snyder; com Dave Bautista, Ella Purnell, Omaru Hardwick, Ana de la Reguera, Theo Rossi, Matthias Schweighofer, Nora Arnezeder, Hiroyuki Sanada, Garret Dillahunt, Tig Notaro e Raúl Castillo


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