Armugan | Crítica do Filme | CinemAqui

Armugan | Ninguém morre sozinho


A frase “Ninguém morre sozinho” contraria o conhecimento comum que diz justamente o contrário: todo mundo morre sozinho. Assim começa Armugan, filme do diretor espanhol Jo Sol, que cria uma figura mitológica contemporânea responsável por ajudar os que respiram pelos últimos minutos a passar dessa pra melhor.

Antes de mais nada é preciso ressaltar que existe um hino nesse filme, ou na verdade dois: dessa pessoa e dessa passagem para o além. Esse hino é composto e conduzido por Juanjo Javierre para criar um tema épico e memorável. E consegue. Quando menos esperamos, estamos a cantarolar em nossas cabeças essa maneira averbal de narrar este conto um tanto foclórico.

Uso o folclore porque a figura de um homem carregando um aleijado em suas costas para onde quer que ele precise estar para realizar o seu serviço ingrato da morte é uma imagem mística que não nos pertence mais. O filme evoca isso em seu ritmo mais lento, que vira solenidade. O belíssimo e límpido preto e branco também auxilia a pensar em algo atemporal, ou de muito tempo atrás.

Este homem, Ánchel, carrega um mito nas costas, e este mito, que dá título do filme, é a única interpretação de Íñigo Martínez, que talvez não faça sentido chamar de ator, pois sua natureza física o torna o personagem por honra. Sua postura ingênua e moribunda pode enganar em aparência, mas logo temos duas sequências em que o vemos ser levado para levar duas pessoas para fora da vida. É uma cerimônia quase religiosa, se não fosse prática, mas elas morrem de qualquer jeito. E é esse o objetivo da cerimônia.

Um conflito surge no meio envolvendo uma criança e onde se discute a função desse “moribundo ingênuo”. Não é construção artificial do roteiro minimalista, que deve caber em três páginas, livre de diálogos para nos distrair de sua essência. Se trata de uma questão fundamental sobre a natureza dessa profissão mítica e suas regras. Então é necessária, chama nossa atenção. Mais do que o filme inteiro, que se traduz em um “slice of life” da dupla inseparável.


“Armugán, El Ultimo Acabador” (Esp, 2021); escrito e dirigido por Jo Sol; com Gonzallo Cunill, Diego Gurpegui, Núria Lloansi, Íñigo Martinez e Núria Prims


O filme faz parte da cobertura da 45° Mostra de Cinema de São Paulo

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