Aprendiz de Feiticeiro

Muito mais que de gênios da sétima arte, desde sempre o cinema precisou mesmo é de mão de obra especializada, aquele diretor que encara o arroz com feijão com seriedade e quase sempre acerta na mão. John Turteltaub, provavelmente, nunca será o funcionário do mês de nenhum estúdio (no caso a Disney), mas ainda sim vai sempre ser encarado como aquele cara com que todos podem contar, e O Aprendiz de Feiticeiro já pode ser um dos resultados disso.

Em três décadas de carreira como diretor, Turteltaub coleciona um monte de títulos que, por mais que todos conheçam (como 3 Ninjas, Jamaica Abaixo de Zero e Fenômeno, entre outros), sempre serão lembrados como simpáticos, divertidos e nada mais que isso, do exato jeito que o público mais recente se recordará de seus dois “A Lenda do Tesouro”. A beleza disso tudo é que de todos esses (e mais no resto de sua filmografia), nenhum deslize pula aos olhos, mesmo em sua maioria contando com histórias fraquíssimas.

Agora, assim como em todos outros, o diretor precisa encarar mais uma trama ruim, mas que diante de seus limites narrativos óbvios, se torna um passatempo interessante e bastante divertido. Nele, Nicolas Cage é Balthazar, um feiticeiro que foi aprendiz do próprio Merlin mas que agora, nos dias de hoje, precisa encontrar um dos descendentes do famoso mago. Do outro lado, Alfred Molina é Horvath, um outro discípulo de Merlin que acabou indo para o lado de Morgana le Fay e agora tem a oportunidade de libertá-la e acabar com o mundo.

É lógico que a trama é sobre o tal aprendiz Dave, vivido por Jay Baruchel (uma das vozes do recente “Como Treinar seu Dragão” e o ator novato do “Trovão Tropical”), e como ele tem que entrar nesse novo mundo, descobrir que é a última esperança de todos e ainda ter que conquistar seu amor de infância. E é exatamente ai que Turteltaub acerta, criando um monte de personagens com motivações, ainda que rasas, totalmente claras e fáceis de serem acolhidas por seus espectadores.

Do mesmo jeito que percebe a fraqueza narrativa de toda história, resolve então ir de encontro ao óbvio sem nenhuma enrolação. Todos sabem o final, onde ele vai, em um momento de superação, acabar com o inimigo e ficar com a garota, sem contar no meio onde desiste de tudo, ou no começo onde ele tem que sofrer para dominar seus poderes, mas tudo é carregado de um jeito tão sincero que pouco importa se todos já viram aquilo tudo em um milhão de outros lugares.

Sobre tudo isso, um visual caprichado que conta com os efeitos especiais da mesma empresa dos dois Tranformers e dos Piratas do Caribe (Asylum), repetindo exatamente o mesmo trabalho: o de encher os olhos da platéia do cinema com sequencias de tirar o fôlego o suficiente para que ninguém ali ponha em prova todas besteiras narrativas que estão vendo. E talvez esse seja um dos acertos de Turteltaub, e que vem se repetindo em toda sua carreira: saber brincar com as poucas possibilidades que tem em mãos. Sua sequencias de ação enchem os olhos e sua câmera parece sempre saber exatamente onde deve estar, pouco inventiva, mas precisa.

Por outro lado, o diretor não consegue fugir de alguns problemas graves não só do roteiro mas dele próprio, já que fica impossível não perder um pouco o interesse de todo filme quando tudo acaba se resumindo a um monte de bolas de energia soltadas pelas mãos dos personagens. Uma ideia que se torna repetitiva, já que qualquer batalha entre eles, elas estão lá, muito mais como uma ferramenta simplista para fazer visível o poder dos feiticeiros do que uma representação digna dos mesmo (que em poucos momentos mostram que podem fazer muito mais que simplesmente isso, coisa que fica esquecida na maior parte do tempo).

Do mesmo jeito, essa “projeção” preguiçosa fica pior ainda quando o roteiro decide que cada feiticeiro terá uma jóia como modo de usar essa força, deixando que a história rume mais obviamente ainda para o final de superação e não criando absolutamente nenhuma surpresa para quem está do lado de cá da tela. E ainda que toda essa previsibilidade possa ser apontada diante de um caráter mais infantil da produção, acaba fazendo, graças a isso, que O Aprendiz de Feiticeiro se torne então um produto desequilibrado. Perdido em suas próprias referências, que, diante de uma pouca idade desse público alvo, se tornam totalmente ineficientes na sua grande maioria, que vão de Indiana Jones até o próprio segmento homônimo com o ratinho Mickey no clássico Fantasia (que fica mais claro ainda com a cena pós créditos finais), passando por Star Wars e até Depeche Mode, tudo muito mais antigo que as crianças de hoje possam aproveitar.

Pelo menos, toda essa escorregada passa despercebida, apenas com uma sensação esquisita, já que o espectador sairá da sala de cinema exaltando muito mais a aventura bacana cheia de efeitos especiais do que seu tom despretensioso, preguiçoso e sem novidades.


The Sorcerer´s Apprentice (EUA, 2010) escrito por lawrence Konner, Mark Rosenthal, Matt Lopez, Doug Miro e Carlo Bernard, dirigido por John Turteltaub, com Nicolas Cage, Jay Baruchel, Alfred Molina, Teresa Palmer, Tobby Kebbel e Monica Bellucci


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