Apollo 18

Apollo 18

Durante um comunicado de rotina da NASA, um de seus funcionários anunciou que, mesmo ajudando diversos filmes com imagens e estudos para criar veracidade em suas histórias, ele gostaria de deixar claro que Apollo 18 não era um documentário e não tinha nenhum contato com a Agência Espacial Norte America *. Na mesma esteira de acontecimentos, a Prefeitura de Barcelona também confirmou que não existiu nenhum tipo de infecção zumbi em nenhuma área residencial da cidade e a Associação Mundial de Wicca, em carta aberta, comentou que não existe nenhuma bruxa cadastrada na região de Blair **.

O que impressiona nisso é que a NASA, com essa atitude, provavelmente vai estragar a graça de um número enorme de pessoas que entrarão no cinema para ver Apollo 18 e serão pegas por toda veracidade dos fatos, já que o filme começa reconhecendo que as imagens a seguir foram editadas a partir de algumas fitas que foram encontradas e contam a verdadeira história do fim do programa Apollo e suas viagens à lua.***

Só existe um problema, e a NASA, graças a Deus se safou nessa: se aquilo tudo fosse verdade… bom, não teria como as fitas terem sido achadas, a não ser que alguém estivesse passeando pelo espaço. Isso então leva a todos a descobrir que Apollo 18 é um filme de ficção.

Bem verdade ele se esforça e segue toda cartilha, como a inexistência de créditos iniciais, o elenco de desconhecidos, as imagens tratadas como se fossem feitas por câmeras da época (ainda que nesse caso a razão delas então acabasse sendo outra, como fez A Bruxa de Blair) e um ponto de partida que aguçaria a criatividade daqueles que adoram uma teoria de conspiração. O problema é que essa “desculpa” de fitas encontradas já foi tão largamente explorada pelo cinema, de tantos modos, que “Apollo 18” acaba não conseguindo fazer nada de novo e, nem por um segundo sequer, consegue capturar a atenção de seu espectador.

Não que alguém fosse acreditar naquilo, do mesmo jeito que não acreditou em [REC], Atividade Paranormal e no mais recente O Último Exorcismo, mas, diferente desses exemplos, Apollo 18 não se deixa ser natural. Por vezes demais deixa que sua câmera encontre ângulos poucos comuns para uma maquina desse tipo dentro de uma nave especial, e por outros exagera demais em falhas, interferências e sujeiras nessa imagem, o que parece irritantemente repetitivo. Mas a gota d´agua vem com uma espécie de zoom para que ninguém perca um sutil movimento de uma pedra.

É nesse momento que ou o espectador se sente completamente imbecilizado, pois deixa a impressão que em um plano aberto talvez ele não percebesse uma pedra se movendo bem no ponto de fuga, ou, simplesmente acorda daquela experiência. É nessa pedra em zoom (com até uma modificação na cor da imagem para realçar aquilo) que o espectador acaba então sentindo o dedo de alguém ali naquelas imagens, e com isso dando adeus a qualquer possibilidade de imersão.

Sem a imersão nesse mundo que finge ser real, Apollo 18 (e qualquer filme que finge ter sido encontrado) se transforma em algo coloquial, que deixa de contar com o clima imposto por esse mergulho e fica então refém das mesmas obrigações que um filme de terror precisa para existir. Nesse caso, sobra então que aqueles dois astronautas pudessem dar de frente com algo mais imponente e assustador do que uma espécie de caranguejo lunar. E se isso para você foi um spoiler é que, realmente, o filme é ficção ou senão já teríamos alguns deles andando por aqui, já que alguns de seus primos foram trazidos por algumas Apollos anteriores (como o próprio filme tenta, depois de tudo isso, ainda fazer o espectador engolir).Filme Apollo 18

O que é interessante disso tudo, é que, mesmo completamente perdido em termos narrativos (e nessa vontade de ser real) Apollo 18 se mostra uma produção corretinha, visualmente falando, e mais, além disso, seus três protagonistas ainda acabam fazendo um trabalho interessante e convincente, o que demonstra que, talvez, caso preferisse tomar um caminho menos visceral e até brincar com algum tipo de paranóia psicológica como principal vilão do filme (ao invés dos caranguejos), muito provavelmente acertasse na mosca. Nesse caso o que os olhos não vêem, o coração iria sentir (que é o caminho que A Bruxa de Blair trilhou).

Pior ainda, na tentativa de cercar o filme com esse clima de guerra fria e a existência de uma espaçonave russa em solo lunar, até acaba criando no espectador um mistério, e o espaço diminuto do módulo lunar só ajuda que tudo se tornasse um terror psicológico eficiente, mas a teimosia em “montar” demais o filme, de modo que a cada corte um suspense aumente, tira o espectador da vontade de acreditar naquela verdade e lhe coloca mais ainda nesse filme de terror rasteiro que não se envergonha (mais uma vez) em colocar um de seus protagonistas na escuridão apenas com um flash piscando (na verdade, faz isso duas vezes).

Apollo 18 então acaba mostrando qualidades que poderiam carregar o filme para um lugar bem melhor, como a caracterização dos dois personagens centrais (tirando aquela espécie de flashback desnecessário no começo), onde, aos poucos, um deles vai ganhando ar de mais protagonista e o outro na função contrária (que acabaria então sendo um antagonista muito mais eficiente do que os caranguejos de CGI), que ainda mostra o quanto uma espécie de paranóia dele poderia mover o filme (que, com a presença dos caranguejos se torna então completamente injustificável).

Por fim, Apollo 18 não decola (fiz de tudo para não usar o trocadilho…) por que não consegue ser mais que um filme de terror B ao invés de um interessante suspense psicológico.

*infelizmente, isso é verdade
**infelizmente, isso não é verdade
***estou sendo sarcástico


Apollo 18 (EUA/Can, 2011), escrito por Brian Miller e Cory Goodman dirigido por Gonzalo López-Gallego, com Warren Christie, Lliyd Owen e Ryan Robbins