Aparecida – O Milagre

por Vinicius Carlos Vieira em 18 de Dezembro de 2010

Uma das dificuldades de falar sobre um filme como “Aparecida – O Milagre” é conseguir deixar claro toda separação entre a crença e o produto cinematográfico, não para quem escreve, mas sim para quem lê. Assim como no recente “Nosso Lar”, uma critica negativa se torna uma afronta contra alguma crença ou doutrina. O problema é que, geralmente, é essa crença que mais prejudica o filme, já que uma espécie de fanatismo parece impedir seus realizadores de perceber seus próprios equívocos.

E, antes de qualquer coisa, o melhor é passar logo pelo assunto: é impossível ver “Aparecida” e não pensar em uma espécie de resposta ao sucesso espírita, ainda que ambos tenham pouco a ver entre si. Lógico, o fundo religioso de ambos (e por que não doutrinário) está lá, enraizado na mensagem final, mas, por bem ou por mal, “Aparecida” parece mais esforçado em fazer isso ficar na raiz. Não que consiga, mas pelo menos tenta.

Por mais que não se contenha em seus créditos iniciais, com ilustrações da famosa Basílica de Aparecida se revezando com fieis em seu interior, o que o roteiro escrito por Marco Schiavon, Carlos Gregório, Pedro Antonio e Paulo Halm faz, ou tenta, é dar ao público a história sobre um pai que vê no acidente do filho uma afronta da Padroeira do Brasil contra ele, já que ela já tinha lhe tirado o pai. Nada muito profundo, mas pelo menos uma tentativa valida de uma trama com um conflito a ser seguido (o que não acontece em “Nosso Lar” e para mim é seu maior erro).

O problema de uma história dessas é que ela sozinha, sem mais absolutamente nada ao seu redor, já é um melodrama sem tamanho, mas junte isso a uma trilha sonora exagerada, uma direção descontrolada e um roteiro mal trabalhado, e o resultado é desastroso. Principalmente quando tudo isso parece trabalhar junto contra o filme.

Tudo é à flora da pele, exagerado e melodramático, as cenas parecem acompanhar o tom das músicas (além de muito altas) orquestradas e sem vergonha de esfregar felicidade, dor, e temas repetitivos. Nenhum diálogo ou movimento de personagem parece conseguir sobreviver sem aqueles acordes de piano e um coral de vozes (sacro, condizendo com o tema, mas não com a idéia da cena). “Sinto uma aflição dentro de você” da boca de uma personagem ganha um piano melancólico na sequencia em que o outro personagem dá às costas a ela e vai em direção ao retrato do tio morto, como se só aquelas imagens não fossem conseguir passar o mesmo sentimento e só aquele arroubo clássico pudesse salvar a dramaticidade desse e de diversos outros momentos.

Esse tom teatral perde realmente o controle já que a direção de Tizuka Yamazaki parece pouco se importar com isso. Além de quase não movimentar sua câmera, fugindo muito menos do que devia de planos médios fixos e alguns zooms, a diretora ainda não consegue impedir que o tom do filme caia nesse exagero. Diante de suas lentes nada parece natural, seus enquadramentos parecem quadrados demais e sempre problemáticos quando mais de dois personagens precisam conviver dentro dele, isso, em composições que não parecem se importar em cortar cabeças ou usar uma janela de moldura, de modo equilibrado demais e pouco estético. No meio disso tudo, seus atores tem pouco a fazer a não ser extrapolar seus sentimentos em diálogos declamados e burocráticos, o que piora tudo mais ainda.

E tudo vai mais ladeira a baixo com uma incapacidade total do roteiro de contar com a inteligência de seus espectadores, basta dizer que todas reviravoltas (ou acidentes) do filme são “predestinados” por palavras de algum personagem próximo. “Nossa, mas você não tem medo de trabalhar aí no alto?” dá um doce para quem adivinhar o que vai acontecer com ele e “Você não devia deixar ele sair assim nervoso” é o mesmo que “te vejo no hospital”.  A descrença em seu público fica maior ainda quando, para mostrar que o personagem está lembrando de seu passado e das razões para ele ter problemas com aquela santa, o filme faz questão de resumir, em flashes, toda primeira parte do filme, simplesmente repetindo-a, como se alguém ali naquela sala de cinema pudesse ter dúvida do porque daquilo tudo, ou já tivesse esquecido da primeira meia hora de filme.

E é lógico que a idéia toda é celebrar a Basílica (que parece geograficamente onipresente em todas janelas e horizontes da cidade), a Santa e toda crença, o problema é não perceber que talvez o melhor jeito de fazer isso fosse fazer um filme, e não um vido constitucional, com enfermeiras gritando “É um milagre”, o doente levantando da cama em câmera lenta, uma reconciliação instantânea de casamento e algumas lágrimas (tudo isso na mesma cena). Sem contar com um final com chuva de papel picado, ainda que nada disso não seja surpresa, depois de uma encenação de “novela de época” e uma imagem da santa se perdendo em fade com um sol se pondo. Indefensável por si só.

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idem(Bra, 2010), escrito por Marco Schiavon, Carlos Gregório, Pedro Antonio e Paulo Halm, dirigido por Tizuka Yamazaki, com Murilo Rosa, Maria Fernanda Cândido, Jonatas Far, Leona Cavali e Bete Mendes

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