Antebellum | Tropeça e estraga a própria boa ideia


Algumas vezes uma grande ideia pode ir pelo ralo. As razões podem ser inúmeras, no caso de Antebellum é uma vontade exagera de explicar uma série de coisas que não interessavam para ninguém que estava se divertindo até aquele ponto e que até voltam a se divertir quando aquela bobagem acaba e você pode até fingir nada aconteceu.

Infelizmente é otimismo demais achar que o meio desastroso consegue ser esquecido e não interrompe completamente o ótimo ritmo inicial. O filme vendido para o espectador nos primeiros momentos é irreparável, um mistério cheio de perguntas e com respostas cirurgicamente colocadas na sutileza de um ou outro diálogo. Mas os cineastas Gerard Bush e Christopher Renz decidem responder tudo e dão um tiro no pé tão grande que chega a ser irritante.

Em um mundo perfeito, sem trailers e sinopses, Antebellum poderia ser descrito como um drama sobre uma escrava vivida por Janelle Monáe em uma plantação de algodão em meio à Guerra Civil. Porém isso tudo pode estar guardando segredos e mistérios que a fazem ter que lutar para sobreviver. Mas não é isso que acontece e toda surpresa é estragada.

O pior é, justamente, que Bush e Renz, além de escreverem o roteiro, dirigem esse começo com uma beleza acima da média e uma sensação de que o espectador poderia ficar por ali apenas observando o bom gosto estética de suas composições e cenas. O longo plano de abertura é um convite a um filme que gera expectativas, mas joga todas elas no lixo.

Essa quebra do filme não só estraga a experiência completamente, como mostra o quanto as decisões dos cineastas estragam o filme. Assim que ela acaba e o filme volta para a “programação normal”, eles mesmos mostram como poderiam ter feito a mesmas coisas, mas com muito mais estilo e vontade narrativa. Comentar esses dois momentos sem dar spoiler seria impossível, mas eles seriam perfeitos para mostrar claramente o quanto nada era o que parecia e tudo poderia ser ainda mais desafiador para o espectador.

O suspense de Antebellum está na maior parte do tempo no inexplicável e na vontade do espectador de desvendar aquelas pistas, com as verdades esfregadas na cara, o que sobra é uma história que acaba se arrastando então para um final óbvio.

E andando na corda bamba dos spoilers, é impossível ver Antebellum e não pensar no A Vila do M. NIght Shyamalan, principalmente, pois o diretor faz exatamente aquilo que Bush e Renz parecem ter receio de fazer: segura seu filme até o final, doa a quem doer. Muita gente saiu irritada do filme de Shyamalan, principalmente pela sensação de frustração anticlimática, o oposto do que aconteceria aqui, com uma linda sequência em slow motion que, além de bonita, tem um significado importe e libertador. Antebellum se liberta das opressões nos últimos minutos, mas é tarde demais. Além de, é claro, brincar com a sempre divertida ideia de brancos ricos doidos fazendo maluquices e sendo derrotados no seu próprio jogo.

Ao invés de confiar em seu espectador e deixar ele montar as peças desse quebra-cabeça antes do final empolgante, Bush e Renz decidem mastigar tudo e cuspir um filme que não percebe a própria possibilidade de ser fantástico, empolgante e inteligente. Prefere a mediocridade das respostas.


“Antebellum” (EUA, 2020); escrito e dirigido por Gerard Bush e Christopher Renz; com Janelle Monáe, Jena Malone, Tongayi Chirisa, Achok Majak, Jack Huston, Eric Lange e Kiersey Clemons