Amor sem Escalas

Amor sem Escalas Filme

Mesmo com uma carreira minúscula, Jason Reitman talvez seja o cineasta mais celebrado dessa nova geração “indie” que tomou Hollywood na última década, muito disso não só por ser um extraordinário diretor, mas até mais, por chegar a seu terceiro filme com a mesma paixão com que fez seus outros dois.

Reitman trata seus personagens, frios e calculistas, com sinceridade, assim como sempre opta por tramas simples, mas tão bem amarradas que extrapolam o que se está vendo na tela. Que te deixam com o gosto do filme na boca por um bom tempo depois que as luzes se acendem. Amor sem Escalas, seu novo filme, talvez não seja seu melhor, mas com certeza, segue os passos de seus outros dois, criando uma grande produção sem perder aquela pontinha de filme “pequeno”, que sabe olhar para dentro de si.

No filme, Geoge Clooney é um “despedidor de funcionários”, um cara que faz o trabalho sujo dos “chefes sem coragem”. Para isso, passa a maior parte da sua vida entre uma ponte-aérea e outra, até que sua empresa resolve investir em video-conferências, e sua tarefa derradeira, ciceronear a nova funcionária (mesma que teve a idéia da modernização), em suas últimas viagens afim de passar-lhe suas experiências.

É lógico que esse suspiro de previsibilidade vai por ar e Reitman presenteia o espectador com um filme cheio de camadas, que te leva para acompanhar o protagonista enquanto esse vê seu mundo se desfazer, que não parece lidar, ele mesmo, com tudo aquilo que parece obrigado a empurrar para os funcionários que ele despede. Como se não conseguisse aprender com suas próprias palavras a dar o próximo passo. Que vê o inevitável vir em sua direção mas não parece estar pronto para encará-lo.

O inevitável dos filmes de Reitman na verdade servem como um combustível para que seus personagens consigam olhar adiante e tomarem suas decisões, já que sempre parecem afastados daquele mundo no qual são obrigados a transitar. Sua Juno era obrigada a crescer em nove meses tudo que achava que tinha crescido em quinze anos, e aqui, Ryan Bigham, o (Clooney), precisa voltar a colocar os pés no chão e criar vínculos. Descer das nuvens e perceber que aqui embaixo o mundo não se exime de culpa e sentimentos.

Ao mesmo tempo, são aquelas video-conferências que privariam mais ainda o protagonista do pouco contato humano, já que até os dispensados sumiriam de sua vida. Criando uma encruzilhada em que nenhum dos lados realmente agradaria a Bigham. Assim como ao espectador, que compartilha daquilo tudo, que se emociona com a belíssima história e torce pelo o personagem, mesmo entendendo o quanto é difícil que tudo aqui resulte em algo feliz.

Um roteiro ágil, escrito por Reitman e Sheldon Turner, ajuda mais ainda ao saber exatamente aonde quer chegar, não perdendo tempo com nada que não sirva para desenvolver melhor os personagens. Talvez não enxuto, já que Reitman tem uma tendência contemplativa com seus planos lentos e meio estáticos, mas que, com certeza, criam uma experiência mais que apropriada diante da idéia que parecem ter para o filme.

Ao mesmo tempo, é essa facilidade com que o roteiro desenvolve toda trama que deixa espaço para situações e diálogos riquíssimos, que criam, aí sim, um dos filmes mais bacanas do ano. Inspirados, ageis e objetivos, que discutem, tanto o “tamanho” das milhas aéreas do protagonista quanto a obrigatoriedade que todos tem que ter diante do futuro, ambos com a mesma naturalidade e objetividade.

É lógico que Reitman não é o único grande responsável por seu sucesso, e talvez grande parte disso se dê em suas ótimas escolhas para seus elencos. E se Ellen Page em Juno e Aaron Eckhart em Obrigado por Fumar seguram o filme nas costas, George Clooney talvez se mostre o mais habilidoso do trio, já que, além de contar com sua experiência, colhe hoje os frutos de uma carreira sensacional. Clooney talvez seja hoje um dos galãs mais confiaveis de Hollywood, e isso se projeta em uma confiança pouco vista nos cinemas atuais. O astro não só esbanja uma naturalidade sem igual como cria um personagem firme, que não parece confortável com as outras pessoas, ao mesmo tempo en que fingi uma confiança que se decompõe ao primeiro sinal daquela obrigação de enxergar seu futuro.

Ao lado do Clooney, tanto Vera Farmiga quanto Anna kendrick aparecem perfeitas, como os dois contra-pontos do protagonista, criando perfeitamente todo o paradoxo entre as duas faces do personagem principal. Como se estivessem ali como um espelho dele, uma verdade que ele tem que encarar antes de dar um último passo. O coração ou a Razão.

São esses pequenos detalhes, essa riqueza narrativa, que faz de Amor sem Escalas um filme único, sobre um homem que, nos fins das contas, não para de viajar por que ainda parece não ter achado o que procura, ou simplesmente não descobriu o que procurar, já que, mesmo quando acha, não parece ver aquilo corresponder como queria. Que no fim, mesmo procurando as tão incríveis 10 milhões de milhas, descobre que elas não servem para nada se você não tem para onde voltar. Um personagem que ministra palestras de como colocar uma vida em uma mochila, mas que não consegue carregar a sua, vazia. Que, mesmo com tudo isso, não consegue decidir qua caminho seguir no último plano do filme, de frente para um enorme painel de embarques piscando destinos, mas que, provavelmente ainda não mostra o seu.


Up in the Air (EUA, 2009) direção: Jason Reitman com: George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick e Jason Bateman


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