Amor Pleno

Ao se mudar para uma pequena cidade norte-americana com o parceiro e a filha de um casamento anterior fracassado, a então esperançosa Marina (Olga Kurylenko) exclama: “Que país justo, rico, limpo.” Após o término deste relacionamento e de ver a garota se Amor Pleno Postermudando para a casa do pai, por outro lado, ela se refere a Paris, cidade em que se encontra solitária, como “apavorante”. Essas definições ilustram o tema de Amor Pleno: o amor que liberta, o amor que sufoca – dois lados de um mesmo sentimento.

Nesse contexto, a condutora da história é a personagem de Kurylenko: após um casamento que terminou devido às traições do marido, a ucraniana se apaixona por Neil (Ben Affleck), um norte-americano de poucas palavras que nunca se entrega totalmente ao relacionamento. Marina e a filha, Tatiana, de dez anos, se mudam então de Paris para os Estados Unidos com ele, mas com o passar dos anos, o amor se deteriora, sem que eles saibam como lidar com isso. Para piorar, Neil ainda reencontra uma amiga de infância (Rachel McAdams), com quem, novamente, falha em estabelecer uma ligação significativa.

Como é de costume na filmografia de Terrence Malick – um diretor que, com apenas seis longas-metragens, vem desde o começo da carreira estabelecendo seu estilo como autor -, a natureza tem papel de destaque na narrativa, surgindo sempre imponente e, dependendo da situação, inspiradora ou opressora. Mantendo sua câmera em constante movimento e fazendo seus atores surgirem em belos enquadramentos que frequentemente escondem partes de seus rostos e detalham suas mãos ou corpos em movimentos que parecem coreografados.

Esforço de obras reflexivas, como as de Malick,  que necessitam de atores que saibam usar seus corpos e olhares para contar a história, e nesse sentido, Kurylenko entrega uma belíssima performance ao se mostra uma forte presença na tela. Demonstrando bem a complexidade dos sentimentos de Marina, uma mulher espontânea, sorridente e pronta para se entregar ao amor. Ao seu lado, Rachel McAdams também surge eficiente em suas poucas cenas, fazendo de Jane uma pessoa que, passando por diversos problemas, pensa ter finalmente encontrado algo para fazê-la feliz. A profundidade dessas relações, assim, fica por conta das atrizes, já que a sutileza da direção e do roteiro de Malick se mostra um desafio excessivo para o talento de Ben Affleck, surgindo completamente apático e, como Neil é calado e não sabe expressar ou lidar com seus sentimentos, praticamente inexistente. Devendo então a composição de seu personagem à ótima fotografia de Emmanuel Lubezki (parceiro habitual do diretor) e ao próprio Malick, que frequentemente o enquadram de costas ou com os olhos fora de campo.

Vale notar também, que, enquanto Amor Pleno faz um belo uso da narração, que não descreve o que estamos vendo mas, sim, dá um novo sentido às imagens, Marina menciona o fato de Neil ser “de poucas palavras” e de “ter dificuldade para lidar com sentimentos profundos”, não permitindo que as ações do personagem falem por si próprias.

Amor Pleno FIlme

Por outro lado, a trajetória do padre vivido por Javier Bardem, com exceção das cenas em que tenta aconselhar o casal, não se encaixam na história principal. Suas dúvidas sobre o Deus que ama, ao invés de mostrarem um outro lado do sentimento que move a obra, nunca se elevam o suficiente para justificar sua presença no resultado final (Malick tem o hábito de cortar várias subtramas e personagens durante o processo de montagem de seus filmes).

Assim, a inteligência e o talento de Malick residem, em grande parte, no fato de o autor confiar no espectador e não martelar frases de efeito baratas ou “lições” em suas obras, deixando o público interpretar o que vê enquanto apenas guia-o nessa experiência. Assim, já antecedemos as instabilidades futuras no relacionamento de Marina e Neil quando o casal caminha pela areia molhada ainda no início da paixão e percebemos, ao ver um cavalo correndo de um lado para o outro em um cercado, sem conseguir sair, que reacender o relacionamento com Neil não será, para Jane, o sentimento libertador que ela procura.

Tatiana fugiu assim que pode da prisão do relacionamento da mãe com um homem que a garota tentou mas nunca conseguiu enxergar como uma figura paterna, um relacionamento em que ela logo viu que “faltava alguma coisa”, e diante disso, Amor Pleno, portanto, é um retrato realista e, ainda assim, belo, de um sentimento tão intrínseco à condição de ser humano. Um sentimento que tanto buscamos mas que, muitas vezes, não faz bem e, mesmo assim, não conseguimos – ou não queremos – escapar.


To the Wonder, escrito e dirigido por Terrence Malick, com Olga Kurylenko, Ben Affleck, Rachel McAdams, Javier Bardem e Tatiana Chiline.


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