Amarra Seu Arado a Uma Estrela | Em busca de Fernando Birri

Amarra Seu Arado a Uma Estrela Filme

Amarra Seu Arado a Uma Estrela é um singelo documentário de Carmen Guarini, discípula do documentarista Fernando Birri, e se torna imperdível conforme observamos que este é um filme onde é possível aprender um pouco do modus operandi de Birri em fazer seus próprios filmes e, mais importante, aprender um pouco quem era este ser humano que amava a vida e questionava a todo momento a essência do ser.

Mesmo não querendo soar didática, o filme de Carmen acompanha Birri durante seu projeto Che: muerte de la utopia? (1999), onde o cineasta pretendia buscar no aniversário de 30 anos da morte de Che Guevara uma reflexão das pessoas sobre o que seria utopia, e se ela é importante hoje em dia. Explorando mais as conversas de Birri com seus entrevistados antes de realizar a filmagem propriamente dita, algo curioso ocorre: as filmagens de Carmen, que parecia nunca largar a câmera, conseguiam tanto extrair a opinião do entrevistado quanto a maneira usada pelo seu tutor para direcionar sua “história”, de maneira a não ser um roteiro completamente manipulativo, mas também não descambar completamente para o improviso e correr o risco de revelar testemunhos que juntos não teriam consistência narrativa necessária.

Além disso, acompanhar os almoços com a equipe e os momentos de descontração se torna algo ainda mais fascinante por podermos ouvir os insights do sujeito, que é um ícone entre documentaristas. Ele é conhecido como o pai do novo cinema latino-americano, mas acima de tudo parece conter uma mente de filósofo trabalhando a todo momento sua interação com a realidade. Nas últimas filmagens que temos de sua vida, quando Carmen lhe apresenta uma câmera go pro, mesmo debilitado ele levanta uma questão fascinante sobre o ser e sua memória. A sua escolha de palavras é a melhor parte, e por isso, mesmo com seu jeito pausado de falar, aguardamos a frase inteira, porque ela nunca é previsível.

 

Amarra Seu Arado a Uma Estrela Crítica

 

Carmen Guarini, por outro lado, parece venerar demais seu tutor, e o apresenta exatamente como ele é no dia-a-dia — uma pessoa humilde, encolhida, e sagaz ao mesmo tempo — e no processo evita tentar contar uma história. Isso empobrece o filme e o torna mais um registro histórico do que uma releitura do cinema de Birri. Ou podemos pensar como uma homenagem. Como o momento que observamos a troca de mensagens entre eles. O que faz lembrar de sua trilha sonora, que é inadequada do começo ao fim. Não há aqui a tentativa de comentar uma história, pois como já vimos, ela não existe. Então ela se torna música ambiente, que é imprópria para este tipo de homenagem.

Obcecada pelos momentos mais brilhantes de Fernando Birri, Amarra Seu Arado a Uma Estrela é uma linda homenagem e revelação da mente deste cineasta que nos deixou aos 92 anos. Mas pela falta de história se torna um filme incompleto. O jogo entre Che Guevara e Utopia são dois pedaços que não são usados para muita coisa. O resultado é um passeio agradável sem muita coisa o que dizer. Mas, ainda assim, agradável.


“Ata Tu Arado a Una Estrella” (Arg, 2017), escrito e dirigido por Carmen Guarini, com Fernando Birri, Osvaldo Bayer, Carmen Papio Birri.


Trailer – Amarra Seu Arado a Uma Estrela

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