Amantes Eternos

Amantes Eternos

Amantes Eternos mostra uma imagem diferente dos vampiros. Longe dos tradicionais Drácula e Nosferatu, mais longe ainda dos seres brilhantes que povoam o imaginário adolescente atual. Permeado por referências literárias, musicais e cinematográficas, o Amantes Eterno Posterfilme traz à tela vampiros como criaturas que já viveram muito – lógico – e sentem o peso desse tempo. Viram transformações no mundo e nas pessoas, acompanharam diversas gerações, e é esse conflito que o filme quer mostrar. Sim, o título soa a romance, e ele existe, mas não é o foco. Fique avisado: se quer ver um romance, não é esse o filme.

Amantes Eternos conta a história de Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), um casal de vampiros – juntos há alguns séculos -, no momento em que Eve, após uma longa temporada em Tânger, se reúne ao marido para tirá-lo da depressão. Adam é um ultra romântico – Eve menciona que ele costumava sair com Byron e Mary Shelley – que concentra suas energias na música. O apartamento em que vive, numa Boston decadente, combinado ao figurino majoritariamente preto reflete a desilusão do personagem com o mundo e as pessoas que o cercam. Eve, por outro lado, com sua caracterização baseada em tons de bege, leva uma existência mais leve. Ela vê esperança no modo como os zumbis (assim que os vampiros chamam os mortais) se relacionam com o mundo. Essas duas personalidades opostas, mas que convergem em diversos pontos são o estopim da maioria das discussões do filme – e elas são muitas.

As conversas guiam toda a narrativa, e a história do filme não é o maior foco. A história se desenvolve com base nos personagens. O problema é que os personagens são estabelecidos em personalidades específicas e não há muito mais evolução a partir daí – eles não têm camadas suficientes, não parecem verossímeis, não parecem reais. O resultado é apenas um emaranhado de referências artísticas que mostram o quanto eles viveram e o quanto conhecem do mundo, mas a relação real deles com tudo isso deixa a desejar.

Amantes Eternos Filme

O mérito, aqui, fica por conta dos atores, que fazem um trabalho muito bom com personagens pouco desenvolvidos. Em um filme cujo foco fica todo sobre eles, porém, é difícil que a performance dos atores faça permanecer a ilusão de consistência e profundidade, por mais talentosos que sejam. E convenhamos, Tilda Swinton é uma ótima atriz. A impressão é que a preocupação foi muito grande em apresentar o conhecimento dos personagens em vez de abordar seus verdadeiros conflitos internos, o que é uma ironia para um filme que começa com um dos protagonistas em depressão. Saindo um pouco do casal principal, John Hurt faz bem um Christopher Marlowe que nunca se perdoou por ter deixado Shakespeare levar os créditos de suas obras. O personagem, porém, não passa de mais uma referência, dessa vez por personificada. Aliás, quem gosta de literatura, cinema, música e artes em geral vai se divertir com algumas referências muito bem colocadas. Mas fica por aí.

Por ser um filme sem uma história bem definida, e ela tampouco é importante para a existência do filme, o ritmo de Amantes eternos é lento. A sensação no cinema é que o tempo passa mais devagar enquanto se vê o filme, uma bela analogia com a existência vagarosa dos vampiros. Amantes eternos é um caso de amor com a arte e se dá muito tempo para falar dela. Mas pode ser um pouco cansativo, se você não estiver no clima.

Amantes Eternos é um filme reflexivo, que propõe pensar a relação das pessoas com a vida e com a arte, e consegue instigar o pensamento sobre diversas questões. É voltado para um público específico, que entenda todas as referências colocadas lá, mas peca pela falta de história. A trama que guia as discussões é fraca e o desenvolvimento dos personagens é raso, o que deixa o filme todo com um ar pedante. É apenas um motivo para falar de “cultura inteligente”. E isso não segura a projeção inteira.


Only lovers left alive” (Reino Unido, Alemanha e Grécia, 2013), escrito por Jim Jarmusch, dirigido por Jim Jarmuschcom Tilda Swinton, Tom Hiddleston, John Hurt, Mia Wasikowska e Anton Yelchin.


Trailer do filme “Amantes Eternos”

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