Alita: Anjo de Combate | Bonitinha, mas ordinária


As cabines de imprensa de superproduções são lotadas de jovens, e Alita: Anjo de Combate é um desses filmes, apesar de sua cara de segundo escalão seu orçamento foi de cerca de duzentos milhões de dólares. Duzentos. Milhões. De. Dólares. Mas a pergunta que fica é: E o dinheiro do roteirista, onde está?

O filme foi escrito por três pessoas: James Cameron (obcecado por Avatar há uma década), Laeta Kalogridis (da série Altered Carbon) e Robert Rodriguez (de Sin City). Eles se basearam no mangá de Yukito Kishiro dos anos 90 que já contava basicamente a mesma história. Não há muito o que inventar quando seu objetivo é fazer/copiar uma distopia genérica no futuro distante onde deve haver luta de robôs/androides. A história é como já foi visto em um ou outro trabalho de referência, como o comércio de partes do corpo em Blade Runner, a questão da consciência/alma em Ghost in the Shell e a velha disputa sanguinária cujo vencedor ganha o direito de participar da elite que comanda essa sociedade.

Aliás, sobre essa sociedade do filme, me vem à mente uma frase de outro filme recente que assisti. Independente de qual ele seja, havia uma pergunta recorrente ao espectador: “qual é a sua utopia?”. Essa pergunta implica que cada um tem sua visão de um futuro ideal, ou muito errado quando se torna uma distopia. Alita me fez lembrar disso porque a distopia do filme parece ser a única produzida em Hollywood há uma década e de forma cada vez menos sutil: a eterna luta de classes e os 1% ficando com tudo. Aqui os “1%” vivem em uma cidade suspensa como os Jardins de Babilônia, mas com tecnologia de 500 anos no futuro, enquanto a Cidade de Ferro é tudo que está estratificado no chão.

Essa distopia possui algumas ideias que poderiam se juntar organicamente à história, mas todos os anos desse projeto não foram capazes de maturar. Como por exemplo os próprios cidadãos se cadastrando como vigilantes que caçam criminosos procurados em busca da recompensa em dinheiro, em uma versão alternativa e popular de Dredd (também originalmente dos quadrinhos), o juiz que caçava, julgava e executava potenciais criminosos. O conceito-chave aqui é que o risco de impunidade é muito maior, que é o que já acontece no mundo real em governos autoritários.

Porém, nenhuma dessas ideias segura de fato o universo concebido pelo produtor James Cameron para a execução dessa obra inacabada e que, portanto, deseja se tornar uma franquia. Nem a heroína segura o filme, pois conforme a história de desenvolve ela vai se tornando menos interessante no ritmo em que seu destino vai se tornando mais previsível. Eventualmente a ideia se esgota, pois não é original.

Isso não acontecia em Avatar, por exemplo. A despeito de ser cópia descarada de Pocahontas ou Dança com Lobos, o objetivo no filme de Cameron era contar uma história simples para apenas introduzir o universo, que é rico em detalhes e que portanto se sustenta sozinho graças à revolução tecnológica. Em Alita isso não acontece, apesar desse mundo ser fascinante pelos elementos gráficos impossíveis, pelas expressões dos androides com formas que lembram mais insetos ou guerreiros absurdamente gigantes e largos do que seres humanos normais, ou até mesmo pelos olhares, os sorrisos e as emoções encantadoras que saem do rosto da personagem-título. De alguma forma o encanto vai diminuindo conforme nos acostumamos com as cenas de ação e o horizonte exagerado de prédios se amontoando em uma favela gigantesca.

Tudo isso porque a história de origem se esquece de apertar mais forte o laço humano de Alita com seu pai adotivo, o Doutor Dyson Ido (Christoph Waltz), que enxerga na garota-androide uma nova filha por quem fazer algo de bom, dando-lhe um novo corpo para viver. O Doutor Dyson dá o corpo criado com amor para a própria filha a Alita, mas por algum motivo, o resultado não chega a ser emocionalmente forte para que entendamos essa relação por completo.

Alita como filme é um projeto inchado de ideias que não dialogam bem entre si, pois envolve dois conceitos opostos: uma crise existencial com auto-descoberta e sequências de ação sem significado claro na história, ou seja, o filme tenta harmonizar o impossível: diversão descerebrada e um drama humano no corpo de uma androide.

O diretor Robert Rodriguez nos garante diversão em várias sequências eletrizantes deste filme-origem que não possui final, como as lutas entre caçadores de recompensa e androides em um esporte visceral da época. As sequências são rápidas mas conseguimos nos localizar e ainda apreciar vários momentos em que os efeitos visuais atingem seu ápice. Rodriguez nos permite também que nos encantemos em várias cenas dignas de um pôster. E isso de alguma forma me incomoda, pois se eu tivesse um desses pôsteres não me lembraria por que essa cena é tão icônica. Talvez porque ela não seja.

Há cenas esteticamente impecáveis onde podemos ficar horas admirando, mas o motivo delas existirem é meramente publicitário. Alita experimenta seu novo corpo e a vemos em posições de combate que exaltam a beleza da tecnologia gráfica, mas você nunca verá no filme um momento que, além de lindo, seja memorável.

O que me faz lembrar de a razão de tantos jovens adorarem ir a cabines com superproduções “baratas” como essa, representando, de certa forma, vários canais onde outros jovens esperam notícias sobre essas produções. O motivo é um só: emoções baratas. É a diversão de acompanhar a evolução tecnológica da arte e vibrar com aqueles momentos-pôster, seja lá por que eles foram criados no filme.

E isso explica, então, porque dos duzentos milhões de dólares investidos, muito pouco deve ter sido destinado para o trabalho dos roteiristas.


“Alita: Battle Angel” (Can/Arg/EUA, 2019), escrito por James Cameron, Laeta Kalogridis e Robert Rodriguez, baseados no mangá de Yukito Kishiro, dirigido por Robert Rodriguez, com Rosa Salazar, Keean Johnson, Christoph Waltz, Jennifer Connelly e Mahershala Ali.

Trailer – Alita: Anjo de Combate