Alemão

É uma pena que ainda tenha gente que aponte o cinema brasileiro como apenas sertão e favela (pelo menos deixaram de falar em “mulher nua e palavrão). Mas o problema maior é não perceber que os cineastas usam tanto esses assunto por uma questão óbvia: Alemão Posterhá muita história boa para contar. Alemão é um exemplo claro disso.

Por definição, o novo filme de José Eduardo Belmonte (que até fez o bobinho Bili Pig, mas antes disso se aventurou no pesado Se Nada Mais der Certo) é um daqueles “filmes de favela”, mas mais ainda é um drama de gênero, um suspense policial eficiente. Um exercício que só não chega muito (mais muito mesmo!) mais longe por que não parece ter a coragem de fazer o que devia ter feito. Sobre “Alemão” exala um cheiro que mistura imposição do mercado e o medo de não ser um filme mastigado.

Nele, um grupo de cinco policiais infiltrados no complexo de favelas que dá nome ao filme acaba sendo descobertos às portas da famosa invasão de 2010. Um grupo de agentes da inteligência da corporação que permaneceram infiltrados por anos no local afim de mapear e conhecer toda o local, traficantes e possibilidades. E tudo isso culmina com os cinco se escondendo no porão da pizzaria de um deles, não sabendo se esperando o inevitável ou, ao menos, tentando traçar um plano de fuga.

Cinco caras sem saber se irão conseguir sobreviver até o dia seguinte ao mesmo tempo em que uma tensão entre eles vai aumentando e aumentando. Um deles podendo ser um traidor, um outro tem um passado corrupto, um terceiro nesse tempo infiltrado acabou se metendo com o próprio tráfico. Todos os ingredientes para um tensão que toma esse ambiente com uma força enorme. E a câmera de Belmonte (fotografada por Alexandre Ramos) sabe disso e o transmite de modo perfeito, colada na ação, sem respiro, claustrofóbico. Escolhas tão perfeitas que acabam deixando mais claro ainda o quanto Alemão erra no resto do tempo.

O filme não devia sair do porão e ponto final. E enquanto o faz lá, escuro e tenso, permite que o monte de erros do resto pule aos olhos. Não acrescenta em nada a subtrama nos corredoras azulados da polícias, e muito menos o traficante “Playboy” influencia alguma coisa, pelo contrário, só permitem que o filme tenha momentos esquecíveis. E não só a investigação à paisana mais mequetrefe do cinema (o policial não dá um passo na favela sem ser reconhecido), mas principalmente a composição preguiçosa do galã Cauã Reymond, camisa do Flamengo, corrente de ouro e trabuco na mão, é só soltar um monte de palavrões e umas gírias que está pronto seu traficante, ainda que mais pareça um esteriótipo montado às pressas.

Alemão Filme

Escolhas tão ruins que só não são piores do que apostar em um Gabriel Braga Nunes para viver infiltrado em uma favela, com cabelo com rabo de cavalo e jeitão de quem estava na favela pela primeira vez. Um erro de concepção, já que ao seu lado Caio Blat (mesmo com cara de “moleque playboy”) faz as escolhas certas e compõe seu personagem de modo perfeito.

E uma das impressões que ficam mais ainda é essa, que dentro daquele porão os cinco são mais que suficientes para levar o filme (Braga Nunes menos, mas como tem tão poucas linhas de diálogo, não atrapalharia). Otávio Muller e Milhem Cortaz dão conta de seus personagens como poucos fariam e Marcello Melo Jr, mesmo menos conhecido, não perde nenhuma oportunidade de encarar nenhum deles, e talvez sendo quem melhor aproveita as nuances do personagem (e é ele que está a mais tempo infiltrado e sem meteu entre os bandidos).

Alemão então se resume a isso, enquanto esse cinco estão apontando armas entre si e discutindo até onde vão suas responsabilidade o filme voa, mas é só sair daquela pizzaria que a discrepância é enorme, só não sendo pior do que quando resolve discutir política pública, UPPs, Black Blocs e manifestações. Nessa hora o que sobra é uma impressão de ter ficado muito mais tempo arrumando um jeito de colocar isso no roteiro (ou entre os créditos) para tornar o filme contemporâneo, do que estudando o assunto. Soando forçado e até bobo, sem perceber que poderia ser um baita de um filmão, era só ser ele mesmo.


“Alemão” (Bra, 2014), escrito por Leonardo Levis e Gabriel Martins, dirigido por José Eduardo Belmonte, com Antônio Fagundes, Cauã Reymond, Caio Blat, Gabriel Braga Nunes, Marcelo Melo Jr. Milhem Cortaz, Otávio Muller, Jefferson Brasil e Mariana Nunes


Trailer do filme Alemão

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