Além das Palavras | Tenta entender a posição da mulher através do poetisa Emily Dickinson

Além das Palavras Filme

Além das Palavras, biografia da poetisa norte-americana Emily Dickinson, é um trabalho que já estabelece desde sua primeira cena a posição que a mulher tem na sociedade em que ela viveu. O filme começa em uma escola apenas para mulheres, onde chega a hora em que elas devem escolher que caminho seguirão: a salvação garantida de Deus ou se viver como pecadoras, esposas de seus maridos, na esperança do perdão final. Não há terceira opção.

E desde o começo Emily já não se encaixa nesse modelo onde a vida das mulheres, além de estar subordinada aos homens na Terra, também está subordinada às figuras divinas da mitologia cristã no Céu. Enquanto isso, uma nação também está aos poucos se formando, baseada em valores cristãos relativamente diferentes (o protestantismo) e questões sérias como escravidão, que serão tratadas adequadamente pela poetisa como equivalentes à situação da mulher, são vistas pelos homens como banal.

O filme consiste em martelar as situações sociais diversas vezes ao longo de sua esticada história, mas bastaria apenas um exemplo para percebermos toda a hipocrisia e preconceito do patriarcado: uma ópera. A mulher cantando nessa cena o faz de uma maneira intensa e apaixonante (e obviamente tem um talento absurdo). O diretor/roteirista Terence Davies nos mostra as reações da família de Emily. Separados por uma parede, os três filhos aplaudem empolgados, enquanto seu pai (Duncan Duff) não; ele desaprova mulheres se “exporem” dessa forma em público. E sua esposa, como a forma visual de enxergarmos isso, aplaude timidamente, embaraçada talvez por não poder se dar ao luxo de ter uma opinião. Porém, ao mesmo tempo, quando indagada pela cunhada em ser tão calada enquanto seus filhos de moral “flexível” expõem ideias de uma nova geração, ela garante a melhor frase do filme: “evito que meus preconceitos sejam entendidos inadvertidamente como opinião”.

Davies estabelece nos melhores diálogos do drama uma dinâmica que consegue ser ao mesmo didática e empolgante, sem soar clichê e ainda conseguindo dar o tom da história. Apresenta com perfeição seus personagens através do que eles dizem, já que este primariamente é um filme de palavras. Porém, mais importante do que elas é quem as diz e em quais circunstâncias. E, “naturalmente”, se quem as diz é um homem ou uma mulher.

E é interessante notar a atmosfera criada pelo filme para que tais opiniões sejam ditas. Estamos acostumados em outros épicos com a severidade de uma sociedade ainda muito engessada, mas não em ouvir pessoas à frente do seu tempo falarem em público, ou no meio do seio familiar. Embora em alguns momentos soe teatral ou literário, queremos conhecer essas pessoas justamente pelo que elas têm a dizer dessa época. E até pela esmagadora maioria das pessoas ser complacente com os valores morais vigentes, são justamente as vozes dissidentes que despertam mais o interesse (embora a questão da fé e da religião dos peregrinos americanos seja usada de maneira impetuosa e divertidíssima; os cristãos do novo continente possuem uma reverência irracional que é divertido de ver em embate com a mente da culta família Dickinson, e principalmente Emily).

Os três filhos da família Dickinson parecem possuir um certo nível de liberdade por uma geração que não entende muito bem as mudanças que estão ocorrendo no mundo, mas a sociedade em que Emily viveu ainda estava muito aquém de suas ideias. De qualquer forma, Emily é vista como uma mente revolucionária de tantas formas e em tantos momentos diferentes que fica difícil não confundi-la com uma biografia exagerada, generosa demais. Os únicos momentos mais verdadeiros residem quando ela conversa com uma amiga mais liberal ainda, mas que, ao contrário de Emily, mantém seus pés no chão. A atuação de Catherine Bailey como Vryling Buffam estabelece com bom humor como as mulheres de mente livre deviam viver e casar na época. E, claro, nunca comentar em voz alta do lado de homens do seu tempo.

Além das Palavras Crítica

Mas apesar de sua amizade e dos irmãos quase esclarecidos, Emily ainda se diferencia por levar todas as questões muito a sério, lembrando uma Ayn Rand em um universo paralelo, se além de feia ela também fosse dramática (e poeta, e não filósofa). É curioso notar como seus pensamentos sempre ganham um tom enigmático em suas poesias, recitadas após cada novo evento em sua vida. Além disso, no filme é como se ela já nascesse com uma veia de escritora; uma escritora matutina (acordava às 3 da manhã e começava a escrever, enquanto o mundo dormia). A atuação de Cynthia Nixon consegue passar com propriedade um misto de genialidade, sagacidade e pessimismo, unidos a uma auto-estima deplorável (é aqui que acabam as comparações com a filósofa do Objetivismo).

A fotografia do filme usa a sobriedade do seu tempo, com cores muito discretas sobre sombras e um ambiente acinzentado. Apesar disso, um figurino quase onírico transforma vários momentos em quadros da época, seja nos detalhes do guarda-sol ou até nas expressões das pessoas (e o avanço no tempo e o envelhecimento feito através das fotografias da época que eram feitas dos membros da família). Há ainda uma formalidade que lembra nobreza britânica, mas muito mais perdida, ou ainda a se descobrir. O diretor nos remete a essa época com um realismo ideológico que transforma Emily em uma das porta-vozes do futuro, ainda com certa incerteza.

Não há trilha sonora, exatamente como a vida naquela época. As exceções ficam por conta de uma visão da escritora com seu pretendido fictício e os momentos ao piano. E note a comparação que o filme faz entre uma personagem que é a antítese da poetisa cantando e tocando maravilhosamente e Emily, quando sua mãe a pede que toque um hino clássico, narrando durante o momento sobre a morte de um garoto (repare também que a outra personagem canta em alemão, que, de acordo com os americanos, é a língua ideal para o canto).

Cheio de virtudes técnicas e narrativas, Além das Palavras é um filme que exige paciência, mas que deve ser recompensada a cada momento em que vemos Emily Dickinson esboçar sua opinião e concluir em poesia. Uma biografia exagerada, mas apaixonante, intensa e, sobretudo, didática.


“A Quiet Passion” (RU/Bel, 2016), escrito e dirigido por Terence Davies, com Cynthia Nixon, Jennifer Ehle, Duncan Duff, Keith Carradine, Jodhi May


Trailer – Além das Palavras

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