Álbum de Família

Vindo de um bom trabalho de estreia com A Grande Virada (2010), o diretor John Wells se arrisca em seu novo projeto, Álbum de Família, em um gênero que, por definição, é difícil: o de adaptações de peças teatrais. O roteiro é de autoria de Tracy Letts, também Álbum de Família Posterresponsável pela peça homônima e vindo de dois impactantes trabalhos cinematográficos – Possuídos (2006) e Killer Joe – Matador de Aluguel (2011) -, ambos realizados com o renomado diretor William Friedkin. Experiente não apenas no teatro, mas com a transposição de suas peças para a telona (todos seus filmes são adaptações de projetos teatrais), tudo indicava que Letts seria a pessoa certa para o projeto, mas infelizmente o resultado não é o esperado.

Filmes baseados em peças são geralmente parados no que diz respeito a movimento por questões óbvias, as limitações dos cenários em uma peça fazem com a mesma se concentre nos diálogos e não nos locais, muitas vezes permanecendo no mesmo cenário durante toda a apresentação. Por isso e pelo fato de ser ao vivo, o teatro entrega performance mais reais e – muitas vezes – mais marcantes e, assim, demanda muito dos atores e de uma forma bem diferente do cinema. Sem entrar em méritos do que é melhor, cinema ou teatro, este aspecto, o das performances, é obviamente o grande forte do teatro. Por tudo isso, trazer uma história para um formato mais cinematográfico sempre é um grande desafio. Em Killer Joe as mudanças de ambiente e o roteiro bem amarrado fazem o filme funcionar – e bem – como obra para o cinema. Já em Possuídos temos um longa muito claustrofóbico e praticamente contido em um único recinto. Mesmo assim, o longa é surpreendentemente bom ao usar isso em prol do tom de paranóia que a trama daquele filme demandava.

Mas histórias sem movimento geralmente criam problemas no cinema. Note, por exemplo, como o bom Deus da Carnificina (2011) de Roman Polanski já apresenta esse problema. Mesmo contando com um quarteto de atores fantásticos – e entregando grandes atuações -, o filme sofria por trazer uma trama pouco envolvente e, claro, por ficar os 90 minutos contido em uma sala. Em Álbum de Família a questão não é muito diferente. O filme abre com o patriarca da família, Beverly Weston (Sam Shepard), falando sobre a vida. Um poeta com um sério problema com o álcool, o homem vive há décadas com sua difícil mulher, Violet (Meryl Streep). Diagnosticada com câncer bucal, ela desenvolveu um terrível vício em medicamentos. Um certo dia, Beverly contrata uma cozinheira para a casa e depois disso desaparece. Pouco tempo depois seu corpo é encontrado e seu funeral faz com que a família, há muito tempo desunida, volte a se reencontrar. O almoço após o enterro leva a muitas discussões, desenterrando fantasmas do passado e criando alguns novos.

Infelizmente o personagem mais interessante do longa, surpreendentemente, é Beverly. Representando, mais à frente, o lado bom da família, o personagem de Shepard é cheio de carisma e sapiência, e sua morte, ainda que aconteça no início do primeiro ato, não deixa de ser sentida ao longo de toda a projeção. E é aí que se encontra o maior problema de Álbum de Família. Além de contar com os problemas habituais de adaptações de peças (o longa se passa quando por inteiro na sala de jantar da casa dos Weston), o filme falha em criar personagens interessantes ou tridimensionais. A personagem de Streep pode não ser unidimensional, mas nunca consegue nossa empatia – ou mesmo pena. Além de insuportável e detestável, a atuação – não a personagem – de Violet parece clamar por uma indicação ao Oscar com sua – péssimas – crises de loucura. Algo tão incomum na carreira de Streep que chega a chocar.

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O elenco é recheado de grandes atores que pouco ou nada tem a fazer. Os papéis dados aos ótimos Ewan MacGregor, Chris Cooper, Abigail Breslin e Benedict Cumberbatch são tão insignificantes que parece que eles só estão lá pois “queriam fazer um filme indie”. Já os papéis mais centrais à trama, os de Julianne Nicholson e Julia Roberts são grandes decepções. Se essa era para ser a grande volta de Roberts ao cinema, é melhor que ela continue procurando. Sua performance contida pode até fazer algo sentido em relação ao que sua personagem viveu, mas os embates com a mãe (a personagem de Streep) não possuem química alguma. O filme falha ao não criar qualquer sentimento no espectador nas – muitas – discussões que ocorrem entre as duas. E a grande reviravolta do terceiro – que já não é tão grande assim – deixa de ser mais marcante por culpa da atuação café com leite de Nicholson.

A qualidade desse excepcional time de atores impede o longa de ser enfadonho, mas nada além disso. Nunca nos importamos realmente com ninguém e o fato do filme colocar as mulheres da família em posição de poder e como principais responsáveis pelo fracasso nos casamentos, tendo os homens como seres pacatos e indefesos falha ao não desenvolver mais a fundo essa ideia de troca de posições. No final das contas, essa análise dos papéis do homem e da mulher é algo tão mal elaborado no filme, que ele chega mais a parecer machista – as mulheres são culpadas por tudo – do que inteligente.

Ao fim, uma coisa fica bem clara. Mesmo contando com as pessoas certas na direção e no roteiro, nem tudo tem como ser adaptado para o cinema de forma satisfatória. Algo que Hollywood teima em não aprender.


August: Osage County (2013), escrito por Tracy Letts, dirigido por John Wells, com Meryl Streep, Sam Shepard, Julia Roberts, Julianne Nicholson, Ewan MacGregor, Chris Cooper, Abigail Breslin e Benedict Cumberbatch .


Trailer do filme Álbum de Família