Al-Shafaq: Quando o Céu Se Divide | Levanta algumas boas discussões, mas perde elas no caminho


Al-Shafaq: Quando o Céu Se Divide faz conexões e cria paralelos no mínimo questionáveis, surgindo como um longa-metragem manipulador e pedestre. Ainda que seja interessante acompanhar a realidade de uma família turca na Suíça, o desenrolar da trama é tão bagunçado, para dizer o mínimo, que os muitos temas que levanta acabam sendo abandonados no meio do caminho, criando espaço para conclusões pouco embasadas.

Em seu primeiro ato, Al-Shafaq traz questionamentos válidos: por que Deus permite a existência da dor e do mal? Como aceitar o fato de que aqueles que sofrem supostamente merecem isso? O peso da religião é imenso, levando os personagens a terem (ou melhor, “terem”) que aceitar “fatos” extremamente cruéis e dolorosos, como a ideia de que, de alguma forma, merecem o sofrimento que recebem.

É uma noção por si só manipuladora, e o longa de início entende isso — e isso apenas enfraquece ainda mais os caminhos que a obra toma ao decorrer da projeção. O pouco foco na vida interna dos personagens, no que eles pensam e sentem, também é um ponto fundamental para que as decisões deles mostrem-se incompreensíveis.

A diretora e roteirista Esen Isik parece determinada a percorrer os caminhos mais simplistas e menos sutis, tornando raso e pedestre algo que poderia, ser explorado de outra forma, render pelo menos alguns debates interessantes. A forma com que a religião é explorada, por exemplo, erra bastante ao focar seus esforços não no mal que a religião causa, mas no mal específico que o islamismo causa, o que é no mínimo uma visão bastante ocidentalizada da questão.

Acompanhando os jovens irmãos Burak (Ismail Can Metin) e Malik (Ahmed Kour Abdo) enquanto eles tentam conciliar uma vida normal de adolescente com as obrigações religiosas e culturais impostas pelos pais, Abdullah (Kida Khodr Ramadan) e Emine (Beren Tuna), Al-Shafaq enxerga seus temas de forma unidimensional, jamais se interessando em ir além do óbvio.

É um problema, também, o excesso de paralelos inseridos de forma totalmente forçada, e que não acrescentam nada real à narrativa — como quando Burak surge na vila de um garoto que depois será levado por seu pai. Tudo isso reforça o tom manipulador e raso do longa; enquanto isso, a montagem não-linear do filme, que de início surge como um recurso bem utilizado, logo se mostra apenas mais uma ferramenta para tentar traçar tais paralelos.

Assim, Al-Shafaq se estabelece como uma obra que não se aprofunda em nenhum dos diversos temas que se propõem a abordar, desde extremismo religioso até a esperança que depositamos nos jovens.


Al-Shafaq: When Heaven Divides” (Suíça, 2019), escrito e dirigido por Esen Isik, com Beren Tuna, Ahmed Kour Abdo, Kida Khodr Ramadan, Ismail Metin e Ali Kandas.


CONFIRA A COBERTURA COMPLETA DA 44° MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO