Água para Elefantes

É tremendamente decepcionante ver um filme com o potencial do drama Água para Elefantes dar tão errado apenas pela presunção de que, para emocionar o espectador, só é preciso uma historinha bonitinha. Pois é, muito pelo contrário. Analisando mais friamente ainda, pode-se dizer que, muito provavelmente, tal presunção se crie, justamente, diante de quem teria que ser mais aberto às necessidades de seu filme, o diretor Francis Lawrence.

Vindo de objetivos narrativos completamente distintos em seus filmes anteriores (Constantine e Eu Sou a Lenda), a impressão que fica, é que ele ainda não parece ter a leveza suficiente para encarar uma história tão sensível como essa (que é a adaptação de um Best Seller de 2006 escrito pela canadense Sara Gruen).

Ambos (o livro e o filme) contam a história desse jovem polonês (em um flashback contado por ele, já idoso) que tem uma vida perfeita e programada, em que ele iria se formar na faculdade, virar um veterinário e ser feliz para sempre, mas um acidente de seus pais interrompe tudo isso e ele se vê perdido pelo mundo, sem dinheiro, sem família e sem esperança, até que acaba embarcando (clandestinamente) em um trem e entrando para um circo.

Jacob (que é interpretado na sua juventude pelo galã Robert Pattinson) então se transforma no veterinário da companhia circense, ao mesmo tempo em que se descobre apaixonado pela esposa do dono do circo (Reese Whiterspoon e Cristoph Waltz) e termina por ter que esconder esse amor para impedir uma tragédia.

Na verdade, em um momento Titanic, o velho Jacob (ai sim bem interpretado pelo genial Hal Holbrook) começa essa história contando como ele foi parar no meio dessa famosa tragédia pela qual o tal circo ficou conhecida, e no meio disso acaba contando a história desse amor. E se, logo de início, é impossível fugir da referência, a direção de Lawrence, muito pelo contrário, parece receosa em dar ao seu filme a grandeza de seu primo marítimo: Se James Cameron aproveitou aquele iceberg no caminho de seu navio para contar uma história de amor, Lawrence segue o rumo oposto e parece dar pouca importância para esse mundo maravilhoso que circunda o casal.

No fantástico mundo do circo de Lawrence o melhor é plantar os pés no chão e ficar na companhia desse triangulo amoroso e perder a oportunidade de entrar de cabeça nessa realidade lúdica (como Cameron faz questão de explorar aquele navio). Ainda mais quando o roteiro de Richard LaGrevanese (que escreveu dramas interessantes como P.S. Eu Te amo, O Encantador de Cavalos e As Pontes de Madison) se mostra tão a vontade com a sensibilidade que essa história se permite ter.

Seu Jacob é um personagem sem esperança, quase pessimista com o mundo, mas que acaba dando o primeiro passo para essa nova vida, justamente no lugar mais esperançoso do País, que naquele momento enfrentava uma crise econômica. Se assume um melodrama que, sem dúvida, não quer ser outra coisa a não ser um melodrama, e, se isso pudesse então ajudar Lawrence a ficar a vontade para soltar sua câmera ao redor desse mundo, parece forçá-lo, erroneamente, a criar um ritmo equivocado para seu filme.

Água para Elefantes acaba picotado e desesperado, direto e prático demais, não se deixando levar pela beleza de algumas de suas tomadas, como o balé dos martelos acertando as estacas ou a tenda do circo ganhando vida, deixando que isso fique pouco tempo diante do espectador. “Enfeiando” um filme que tinha tudo para ser lindo e encantador.

Lawrence parece tão preocupado com esse trio de personagens que não percebe que, diante daquele circo, daquelas pessoas, e daquele momento histórico, todas ferramentas para se desenhar um filme visualmente impecável, estivessem lá, ao alcance de sua mão. De um país em crise sentado vendo aquele “maior espetáculo da Terra” a uma espécie de família composta de gente que, fora daqueles vagões, daquele picadeiro e daquela falsa realidade, tem medo de serem apenas mais um diante da multidão.

O desespero de só olhar para esses três personagens é tão grande, que essas discussões são usadas, única e exclusivamente, para aprofundá-los, mesmo tendo tamanho material humano em mãos. É difícil (ou impossível até) se comover com a morte de dois personagens coadjuvantes, em certo momento do filme (que acabam tendo uma enorme importância para o ato final do filme, mas acabam sendo encaradas como um pequeno flash, meio sem importância) pois, até aquele momento, o peso e a profundidade de suas presenças, tinham sido apenas arranhadas na superfície de sua trama principal.

Quem sai ganhando com esse equilíbrio é Chistoph Waltz, que, na pele do dono do circo (e vilão por definição, e atalho, que é o único que maltrata um animal) acaba sendo deliciosamente trágico, sádico, e apaixonado (tanto por seu circo quanto por sua mulher). Uma profundidade sádica e pesada que dá ao trio a única vida que ele precisa para existir, já que Whiterspoon parece estar ainda no piloto-automático pós Oscar e Pattinson, mesmo esforçado (é preciso dizer), só não perde em antipatia com o público graças a imagem de Holbroock, que permite a todos ver o quão simpático e apaixonante ele irá se tornar.

No fim das contas, Água para Elefantes presume que pode emocionar só com essa história bonita, que, muito embora, ajude bastante a mascarar a falta de criatividade do diretor, ainda assim escorrega em um fim pouco “Titaniesco”, que não impressiona e não percebe a veia épica que tudo aquilo teria. Uma história de amor que acaba dando certo de modo cômodo com a falta de fantasia e ambição visual que Lawrence parece não faltar na hora de comandar vampiros apocalípticos e demônios, mas não consegue alcançar com gente de verdade.


Water for Elephants (EUA, 2011), escrito por Richard LaGravenese, a partir do livro de Sara Gruen, dirigido por Francis Lawrence, com Robert Pattinson, Reese Whiterspoon, Chistoph Waltz e Hal Holbrook.


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