Adú | Se perde nas próprias intenções


Adú mistura temas totalmente não-relacionados e ainda espera que o espectador imagine estar vendo um novo Babel, 21 Gramas ou Traffic, onde o drama dos personagens se cruzam e no final vira aquela mensagem de “estamos todos conectados”. Infelizmente o máximo que ele consegue é nos fazer ver como o roteiro é mal feito.

A história gira em torno de personagens que irão se encontrar direta ou indiretamente com a figura de Adú, uma criança de uma pequena vila em um pequeno país na África que começa sua jornada de refugiado precoce quando sua família vira vítima de uma máfia local caçadora de elefantes. Ele e a irmã, ambos crianças, perdem a bicicleta próximo do local de abate de um desses elefantes e automaticamente já sabem que os homens maus virão matar sua mãe. Mas eles já têm um plano de fuga (Que família preparada!).

Enquanto isso, em algum outro lugar que nunca sabemos onde é, porque não estudamos geografia local de ex-colônias africanas, um homem trabalha em uma ONG salvando elefantes. Ele tem dinheiro de sobra e foi para a África se distanciar de sua família e se eximir de sua culpa branca, tentando salvar elefantes dos próprio moradores locais. Quando ele e a equipe local encontram o mesmo elefante recém-abatido, o líder local sugere usar a carne para alimentar os moradores da vila, mas o homem branco tem algum princípio que impede que seja aplacada a fome local com uma fatalidade que é irreversível.

A filha do homem branco se reencontra com ele para passarem algumas semanas se odiando de perto. Ela o desaponta, já que é jovem e curte suas noitadas nas baladas locais usando alguns alucinógenos. O homem branco esperava que ela fizesse um chá para os dois curtirem a companhia um do outro na sala de estar e fossem dormir às 20h. Ela não faz isso e é um desgosto para o pai.

Mas, voltando à história: por que o cara do elefante está no filme? Eu não sei, nem o diretor, nem o roteirista. Vamos fingir que este é um “tipo Babel“, onde as vidas estão conectadas. E tudo conectado vai se revelar no final, não é mesmo. Não. Sinto desapontá-lo com um pequeno spoiler: não vai.

O tema principal é obviamente sobre refugiados, mas que filme hoje não é? Em uma das inúmeras fronteiras que vemos no filme e nunca sabemos onde é, os guardas vivem a tensão de todos os dias terem que proteger a fronteira com o risco de serem processados pelos direitos humanos se encostarem em algum refugiado. A imprensa nunca está presente nessas horas, apenas no dia seguinte para coletar o press-release do próximo julgamento.

Passamos por Camarões, Congo e talvez um ou outro país. Parece tudo a mesma coisa, mesmo com legenda. O filme devia vir com um mapinha, mas não ia servir pra muita coisa, pois em cada momento que a legenda sobe não importa onde os personagens estão. Eles nunca se encontram, nem fisicamente, nem espiritualmente.

No final tragicômico, o pai e a filha brancos do primeiro mundo roubam a bicicleta das crianças do quarto mundo e aprendemos que tentar viajar nas asas de um avião pode te matar congelado. A não ser que você seja o protagonista. Aí mesmo com a cena mal explicada você sobrevive.

Adú é isso aí. Ah, e tem música triste de separação no final. O garoto, interpretado com coesão, mas sem paixão, por Moustapha Oumarou, faz amizade com um jovem que deve morrer ou ser refugiado para sempre. Ele está com a imunidade muito baixa, mas atravessa o mar de boia mesmo assim.

Por falar em atuação, a irmã de Adú, Alika, é interpretada por Zayiddiya Dissou com uma cara mais dura e feições mais reais de quem está de fato fugindo de sua terra e arriscando a vida. Dissou pode ser uma aposta para o futuro, embora neste filme seja improvável que o elenco consiga brilhar em meio ao caos narrativo.

O diretor e idealizador do projeto, Salvador Calvo, foi voluntário da CEAR (Comissão Espanhola de Ajuda aos Refugiados) e neste filme compila uma miscelânea de história que colecionou dessa época. Por exemplo, o do menino de seis anos que era levado em uma viagem como parte de uma família, mas era mais uma vítima de uma rede de tráfico de órgãos; ou um adolescente somaliano que era abusado pelo tio e ao tentar fugir virou escravo. Quando finalmente ele conseguiu escapar em Marrocos faleceu, vítima de AIDS.

Esses dois exemplos são poderosos porque possuem todas as nuances de um drama real. Adú é um compilado feito para dramatizar, mas sem a substância. Retira-se o filtro cinematográfico e a música triste, o que sobra é uma “novela sobre refugiados” (no sentido ruim da expressão) e mostrando como estar próximo de tragédias da região não o torna um expert em geopolítica.


“Adu” (Esp, 2020); escrito por Alejandro Hernández; dirigido por Salvador Calvo; com Luis Tosar, Álvaro Cervantes e Anna Castillo.


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