A Primeira Tentação de Cristo | É pavê…


[dropcap]J[/dropcap]á virou tradição de natal o grupo de comediantes do Porta dos Fundos, em parceria com o serviço de streaming Netflix, lançar no final do ano mais uma revisita bem-humorada ao clássico dos clássicos (pelo menos para o cristão). E em A Primeira Tentação de Cristo há mais um divertido estudo de personagens, que provoca tanto os mais dogmáticos quanto os mais “heteroflexíveis”.

A historieta de menos de uma hora de duração é sobre o aniversário de 30 anos de Jesus, momento em que seu pai, seu verdadeiro pai, Deus (Antonio Tabet), irá revelar sua paternidade. Toda a brincadeira do roteiro escrito por Fábio Porchat e Gustavo Martins gira em torno das escolhas divinas de Jesus, a nova divindade que será finalmente revelada. O que significa entrar para a patota formada por Buda, Shiva, Alá (em uma divertida aparição) e até o deus do Tom Cruise (outra divertidíssima aparição).

O humor do Porta sempre girou em torno de pegar temas delicados e mundanizá-los até o nível de escracho, e com isso vêm à superfície uma humanidade que aproxima as pessoas. É esse o humor que une em vez de dividir, e por mais que religiosos fanáticos discordem, os trabalhos do grupo que giram em torno de cristianismo é uma senhora propaganda à religião que seguem, pois não denigre as imagens sagradas, mas apenas atualizam e rediscutem as figuras históricas sem alterar seus valores sob a ótica do homem comum contemporâneo.

É por isso que é engraçado o contraste entre a ótima Evelyn Castro (repare o embate entre ela e o amigo de Jesus, interpretado por Porchat), que faz a sempre pura (pelo menos nos livros) Maria, e a periguete que um dos reis magos “traz para o rolê”, interpretada pela eficiente Thati Lopes, que poderia fazer uma versão de Maria Madalena como protagonista e segurar a bronca. Claro que todos esses atores e atrizes são ótimos em fazer rir, pois são comediantes conduzidos pelas infinitas sacadas da mente dos roteiristas do Porta. Mas, além disso, há aqui e ali momentos que permitem enxergamos um pouco do talento de timing desses profissionais.

Note, por exemplo, Gregório Duvivier como Jesus Cristo. Suas já batidas feições de ingenuidade ou “introspecção emo” são perfeitas para um Jesus que está em uma fase de auto-descoberta, que passou 40 dias no deserto explorando sua sexualidade com seu amiguinho e que agora precisa voltar para casa e enfrentar os desafios da fase adulta, como ser o dono do mundo, por exemplo. Duvivier aqui, assim como todo o elenco, não cria personagens, mas são os fios condutores para releituras nada sagradas das histórias que como cristão aprendemos a venerar, mas como seres humanos entendemos que há um fundo de humor em cada uma delas (minha preferida é a do burro falante, em outra parte dos evangelhos).

A Primeira Tentação… é um trabalho teatral filmado com pomposidade por uma equipe que está cada vez mais afiada, onde o uso de luzes azuis e vermelhas nas mãos dos atores é o tipo de detalhe divertidíssimo de observar, pois diz muito sobre a união entre produção técnica e artística. Sua virtude é não fazer humor apenas para atacar figuras religiosas, mas unir as diferentes formas de ser humano que possa existir. É um hino de amor a todos, que estão perdoados de seus ódios em 2019 com política, futebol e religião, temas que apenas dividem e que precisam ser abordados com mais humor.

Portanto, esqueça os extremos, e foque no seu coração. Que você, caro leitor, tenha um ótimo natal e um excelente ano-novo. E que consiga passar essa virada sem ninguém fazer a piada do pavê. Será que conseguiremos quebrar essa tradição?


“A Primeira Tentação de Cristo” (Bra, 2019), escrito por Fábio Porchat e Gustavo Martins, dirigido por Rodrigo Van Der Put, com Gregório Duvivier, Fábio Porchat e Antonio Tabet, Evelyn Castro, Thati Lopes, Diego Portugal.


Trailer – A Primeira Tentação de Cristo

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