A Prima Sofia | Um verão para mudar a vida


O cinema adora um verão ensolarado que muda a vida de jovens. Seja por meio de um mentor, alguns erros, uma paixão ou, no caso de A Prima Sofia, a própria prima Sofia, que surge meio nua, exótica, no mar transparente de uma praia de pedras de Cannes. Um convite paradisíaco para uma história sensível e que está por baixo do belo.

A história é de Naima (Mina Farid), uma garota de 16 anos que irá viver esse verão em Cannes com sua prima, Sofia (Zahia Dehar), um pouco mais velha, mas com um estilo de vida que fica entre a liberdade, o hedonismo e o deleite. A sedução por esse mundo faz com que Maina precise entender o que realmente quer para seu futuro.

Os conflitos comuns ao gênero estão todos lá. Maina precisa escolher entre a prima e o melhor amigo, Dodo (Lakdhar Dridi). Olha para o relógio caríssimo e tenta entender o quanto é simples essa vida mais fácil, sem pensar nos sacrifícios. Tenta entender o valor de um objeto e o quanto aquilo tem um preço alto a ser pago.

Talvez A Prima Sofia seja sobre não olhar para trás, mas também é sobre experimentar e descobrir que talvez aquele preço não valha a pena, mas talvez precise ser pago antes de ficar às costas, servindo de lembrança. Essas sim, não tem preço.

O roteiro de Rebecca Zlotowski (que também dirige) não busca algo tão complexo em termos práticos, quanto o faz em suas camadas. Cria um filme claro naquilo que quer mostrar, portanto o espectador irá viver esse verão de incertezas e desejos de Niama. Vai ver essa garota crescer mais em algumas semanas do que em toda sua vida. Talvez o achado maior onde ela descobre quem realmente é.

O resultado desse esforço estético de simplicidade é um visual solar, colorido, quente, que em certos momentos parece quase conversar com o onírico. Um filme que aceita sua sensualidade meio torpe, mas, ao mesmo tempo, normatiza o belo, a nudez e o corpo como algo que não deveria ser tratado como tabu. A Prima Sofia é também sobre a liberdade de simplesmente ser sem que a moral e a decência criada pelos outros criem obstáculos.

Também um conto sobre a perca da inocência, tanto de quem já perdeu, quanto de quem ainda está nesse processo. Entender o quanto o xingamento moralista padrão deve ser ignorado para que o caminho à frente fique sempre aberto para novas experiências.

O filme que não julga suas protagonistas enquanto todos estão sob o mesmo sol escaldante, mas não foge de sentenciar o vazio decadente do dinheiro como significado. Um esforço para retratar uma espécie de linda burguesia superficial, mas que é construída por quem está por baixo disso, mexendo os pauzinhos, servindo antes do patrão chegar e criando esse conforto invisível e irreal. Zlotowski faz serem visíveis essas vidas ignoradas pelos altos cifrões e coloca suas protagonistas nesse limbo entre os dois lugares.

A Prima Sofia é pertinente, sensível e sensual, não esconde seus sentimentos, mas nem por isso deixa de falar sobre tudo aquilo que acha importante e não deve ser ignorado. O filme de Zlotowski, como um bom “coming of age”, é sobre esse momento único na vida da protagonista, onde ela deixa de ser uma jovem de 16 anos e se torna uma mulher. Mas tudo isso sob o sol de Cannes, com um pouco de bossa nova e uma prima semi-nua nadando no paradisíaco mar transparente da Riviera Francesa.


“Une Fille Facile” (Fra, 2019); escrito por Rebecca Zlotowski e Teddy Lussi-Modeste; dirigido por Rebecca  Zlotowski, com Mina Farid, Zahia Dehar, Benoit Magimel, Nuno Lopes e Lakdhar Dridi


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