A Odisseia dos Tontos | O que pode dar errado?

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


Fermín Perlassi, personagem de Ricardo Darín, acaba de explicar seu plano de empreender em uma cooperativa local onde a economia da vida de vários moradores servirão para o início do projeto. Ele termina dizendo a famigerada pergunta retórica “o que pode dar errado?”, e duas linhas de letreiros “respondem”, uma após a outra, deixando claro que A Odisseia dos Tontos não poderia ter um título melhor. A primeira linha: Argentina. A segunda linha: agosto de 2001.

A primeira linha já assusta ou faz rir de nervoso, pois a Argentina é o país conhecido internacionalmente por sua economia ligeira: quebra a cada década. A segunda linha, mais técnica, indica que estamos às vésperas do que acabou ficando conhecido como Corralito, uma menção à clássica corrida aos bancos que ocorre sempre que a liquidez dos depósitos de seus clientes está em xeque. O mesmo aconteceu nos moldes brasileiros na época do governo de Fernando Collor, quando houve o confisco das poupanças de todo o país.

Mas este não é um filme como A Grande Aposta, que quer ensinar ao espectador conceitos complexos de economia, pois ele se atenta apenas ao básico necessário para entendermos que aquela pobre gente foi enganada em um jogo que nunca poderiam ganhar. Porém, assim como o filme de Adam McKay, este também fala sobre crise moral, e de onde emergem os heróis, no caso os tolos, que têm todas suas economias confiscadas e irão à forra pegar o que lhes é de direito.

Baseado no livro Eduardo Sacheri, “La Noche de la Usina”, o filme dirigido e escrito por Sebastián Borensztein começa com o clímax do final para em retrospecto contar sua história no estilo filme de roubo, onde cada passo será explicado e cada obstáculo ultrapassado. Ele é didático, pois lida com problemas da vida real, onde abrir o cofre não é tão difícil quanto impedir que seu dono descubra.

O pano de fundo justiceiro usado para justificar as ações dos seus heróis não poderia ser mais enfatizado. A gangue montada é de pessoas simples, pacíficas e sem intenções de tornar aquilo uma carreira. Há uma perda do personagem de Darín, o que entrega um certo peso dramático ao personagem, mas que nunca é explorado direito, apenas contando como agravante.

O vilão do filme, um advogado, além de ter uma profissão tradicionalmente odiada por todos, ainda é ganancioso, materialista, mau-caráter e explosivo. Não há nuances de nenhum dos lados. Esta é a vingança dos argentinos da classe-média, explorados sempre que possível, dos párias que exploram o sistema econômico de seu país.


“La Odisea de los Giles” (Arg/Esp, 2019), escrito e dirigido por Sebastián Borensztein, baseado no livro de Eduardo Sacheri, com Ricardo Darín, Luis Brandoni e Chino Darín.



Trailer do Filme – A Odisseia dos Tontos

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