A Melhor Escolha | Mais que só uma “última missão”

A Melhor Escolha Filme

Se não fosse pelo meu editor, o Vinicius Carlos Vieira, eu provavelmente nunca faria o link entre o diretor Hal Ashby e Richard Linklater. Isso porque este A Melhor Escolha pode-se considerar uma “continuação espiritual” de um filme que o antecede, dirigido por Ashby, A Última Missão. Mas o que Linklater parece fazer é algo ainda maior, incidentalmente se declarando com este filme o diretor que, assim como Ashby, observa a humanidade através das pessoas em seu dia-a-dia, conversando, interagindo e discutindo sobre a própria vida.

Este filme apresenta os mesmos personagens do longa de 1973, mas com os nomes diferentes (embora aqui e ali referencie alguns apelidos do original, como “Mule”). Se bem que os nomes não importam muito, já que Laurence Fishburne, Steve Carell e Bryan Cranston criam personas meticulosamente idênticas a versões envelhecidas dos personagens antes encarnados por Otis Young, Randy Quaid e Jack Nicholson, respectivamente. É notável, assim como foi com Nicholson, a naturalidade com que Cranston abraça o ex-fuzileiro bonachão, incluindo suas pausas ao falar, seu modo simples de argumentar e seu lado pragmático e beberrão.

Fishburne e Carell iluminam ainda mais estas pessoas, pois possuem maior controle nas atuações. Fishburne principalmente, pois divide mais tempo com Cranston, e diferentemente da parceria Young/Nicholson, estabelecem uma dinâmica mais equilibrada. Enquanto isso, Carell domina a arte de conseguir ser invisível e ao mesmo tempo notável, seja nas partes cômicas ou dramáticas. É um Randy Quaid à altura.

O que leva a pensar sobre a decisão de não utilizar os atores originais envelhecidos. Seja por problemas contratuais ou comerciais, o que importa é que a emenda saiu melhor que o soneto. Este é um filme que não precisa do seu anterior para ser entendido, mas seguindo a lógica afetiva do cineasta (Boyhood), é muito melhor que você sinta o tempo passar em relação àqueles rapazes se divertindo despreocupadamente.

Aqui os três já passaram pela guerra do Vietnã. Estamos em 2003, o início da “guerra ao terror” do governo Bush, e o personagem de Carrel se encontra com os outros dois, justamente, para ajudarem ele a ir ao enterro do filho, morto no Iraque. O estado de desolação em que se inicia a história é apenas a ponta do iceberg de um filme que não tem medo de abrir as feridas de mais uma guerra que fez os americanos repensarem suas prioridades e a própria relação de confiança entre cidadãos e seu governo.

A Melhor Escolha

O melhor do roteiro, escrito por Linklater e auxiliado por Darryl Ponicsan, que escreveu ambos os romances em que os filmes de baseiam, é que os acontecimentos que levam os três a permanecerem juntos por um tempo é invisível. Não soa forçado. E a união destes três amigos também não. Apesar de tantas diferenças entre eles, e o fato de pessoas mais velhas se tornarem cada vez mais reservadas, esse trio segue a mesma dinâmica das noites que passaram algumas décadas atrás. E é tocante observar como a mesma dinâmica entre eles permanece, ainda que estejamos assistindo a uma situação completamente diferente.

Com o dom de escolher as falas mais naturais possíveis e eliminar tudo que possa parecer artificial, Linklater formata seu filme nos mesmos moldes do original de Ashby, mas enquanto o diretor de A Última Missão parecia apreciar um pouco de caos, o diretor da “Trilogia da Meia-noite” parece estar um tanto obcecado em controlar a naturalidade. Torná-la eterna, vibrante, como a própria vida, se esta fosse sempre brilhante.

Há um momento tão hilário em A Melhor Escolha, onde eles relembram sobre a “Disneylândia do Vietnã”, que chega uma hora que se torna impossível não dar risada junto com esses três. Nessa hora não há nenhum tipo de sacada no jogo de palavras nem nenhum diálogo “inteligente demais para ser verdade”. Apenas três amigos tirando sarro um do outro. Mas é tão viva e nítida a sensação, que isso passa pelas nossas próprias experiências de vida, que ela é engraçada exatamente como a vida pode ser, sem por nem tirar.

E há outro momento também, onde simplesmente não há nada a ser dito. É o momento final. Quando percebemos que, quando estamos ao lado de melhores amigos, nada importa mais do que viver aquele momento, seja bom ou mau.


“Last Flag Flying” (EUA, 2017), escrito por Richard Linklater, Darryl Ponicsan, dirigido por Richard Linklater, com Bryan Cranston, Laurence Fishburne, Steve Carell


Trailer – A Melhor Escolha

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