A Marca do Demônio | Samba do Chutulhu doido


A Marca do Demônio começa com uma citação de H.P. Lovecraft a respeito do que não está morto e de que até a morte pode morrer. Isso não tem muito a ver com o resto do filme mexicano, mas, ao mesmo tempo, empurra o sarrafo da expectativa lá para alto. Em ambos os casos o resultado é desastroso para o espectador.

Os irresponsáveis por essa bagunça são o diretor Diego Cohen e o roteirista Ruben Escalante Mendez. E acreditem, amantes do gênero, vocês não estão preparados para o que virão. Pior ainda para os leitores do Lovecraft.

É claro que os fãs do escritor já estão acostumados com o cinema maltratando seu material. É difícil até caber em uma mão exemplos de grandes adaptações… tão poucas que é melhor não citar nenhuma. O que não tira disso a sua influência no cinema de terror, já que praticamente tudo que foi feito depois de suas obras acabou com um pouquinho de seu DNA. E isso não é exagero.

Por isso, ver A Marca do Demônio fazendo esse “samba do Chutulhu doido” é desesperador (não no bom sentido!).

O filme começa com uma longa tomada aérea que sobrevoa um pequeno vilarejo no México e chega a um padre fazendo mais um exorcismo em uma criancinha que pula na cama como uma pipoca em uma panela. O exorcisma não dá muito certo e, 30 anos depois, uma professora acaba entrando em contato, misteriosamente, com um livro que, aparentemente, esteve presente nesse exorcismo.

Uma mistura de inocência, com burrice e a mais completa irresponsabilidade cósmica, faz com que as filhas da professora resolvam conjurar uma escritura do livro logo após descobrirem que ele é, justamente, o Necronomicon. Sim, aquele escrito pelo “árabe doido” Abdull Alhazerd e é praticamente um correio com os Antigos.

Para quem não está acostumado com a mitologia de Lovecraft, os Antigos são seres cósmicos extradimensionais que fazem questão de deixar maluco todo humano que cruza seus caminhos. Portanto, ninguém que você gostaria de conjurar.

Mas tudo bem, personagem de filme de terror quase sempre não sabe lidar com a própria ausência de capacidade intelectual, mas essas duas personagens foram além disso.

O que vem depois disso é ainda mais problemático, tanto em termos de estrutura narrativa, quanto referencial e, pior ainda, tecnicamente falando. Cohen faz um trabalho de direção que beira o amador, principalmente, por não conseguir compensar a mais completa falta de dinheiro para fotografia e design de produção. Tudo parece ser feito sem o mínimo de capricho e isso é tão nítido que vai atrapalhar muita gente na hora de apreciar o resultado do lugar onde foi todo dinheiro: a maquiagem e os efeitos.

Tudo bem, ainda não estamos falando de algo a ser lembrado como um grande momento do gênero, mas perto do resto da produção, a maquiagem e os efeitos visuais acabam sendo a única coisa que presta em A Marca do Demônio.

O que segue o mesmo ritmo ladeira abaixo é o roteiro. E se você é fã da obra de Lovecraft e chegou até aqui, deve estar se perguntando, onde o demônio chega nessa história toda. E a resposta é: ninguém sabe.

As referências a Lovecraft não são sutis, além do livro, as personagens precisam lidar com Cthylla e Ythogtha, seres famosos na literatura do autor, mas que, absolutamente não tem nada a ver com projeções católico-cristãs de nenhum tipo. A cara de pau do filme é tão gigante que a bíblia na cintura do padre acaba tendo uma função bem diferente. Mas mesmo assim é uma bagunça grande demais para a paciência de qualquer um.

O tal padre exorcista é vivido pela única cara conhecida do elenco, o ótimo ator espanhol Eduardo Noriega, que não acrescenta absolutamente nada ao filme e só está na trama, pois uma das personagens procura no Google a expressão “padre exorcista México clandestino”. Uma clandestinidade, que, obviamente, não parece ser muito eficiente.

Mas tudo bem, A Marca do Demônio será eternamente conhecido como o filme onde Cthylla é exorcizada por Ythogtha através de porrada com a ajuda de um padre bonitão viciado em heroína.

Um filme que começa com uma citação de Lovecraft e acaba tentando despertar aquilo que está inanimado apenas para ele abrir os olhos e morrer de dar risada desse parágrafo anterior.


“La Marca del Demonio” (Mex, 2020), escrito por Ruben Escalante Mendez, dirigido por Diego Cohen, com Eduardo Noriega, Eivaut Rischen, Arantza Ruiz, Nicolasa Ortíz Monasterio e Lumi Cavazoz.


Trailer do Filme – A Marca do Demônio

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.